quinta-feira, 29 de agosto de 2019

recordar
















Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquanto te aperto nos meus braços.







Jacques Prévert















quarta-feira, 15 de maio de 2019

Se eu fosse a ti amava-me


















Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim. 
Não hesitava mais, fugia. 
Dava o que tens, o que tenho, 
para ter o que dás, o que me darias. 
Soltava o cabelo, chorava 
de prazer, cantava descalça, dançava, 
punha em fevereiro um sol de agosto, 
morria de prazer, não punha 
nenhum mas a este amor, inventava 
nomes e verbos novos, estremecia 
de medo perante a dúvida de que fosse 
só um sonho, fugia 
para sempre de ti, de ali, comigo. 
Se eu fosse a ti amava-me. 
Dizia que sim, vinha 
a correr para os meus braços, 
ou pelo menos, sei lá, respondia 
às minhas mensagens, às minhas tentativas 
de saber que é feito de ti, telefonava-me, 
que será de nós, dava-me 
um sinal de vida, se eu fosse a ti.


Juan Vicente Piqueras










domingo, 17 de fevereiro de 2019

uma vaga de luz










O que nos chama para dentro de nós mesmos
 é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
 Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
 e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
 Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
 pelo movimento, pela forma, pelo nome,
 voltamos ao zero irradiante, ao ver
 o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
 o que não tem tamanho, mas está agora
 engrandecido dentro do novo olhar.



Fiama Hasse Pais Brandão











quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Escrevo apenas para matar o tempo.










Nada digo que não tenha já sido dito.
Não procures novidades nos meus versos.
Amei sem ser amado, como tantos.
Fui jovem, como todos, sem o saber.
Pedi à arte coisas que tinha esquecido.
Apenas sei que de nada me serviram.
Tive um tesouro entre as mãos, tive
ouro e areia, luz e desconsolo.
Não procures novidades. O que digo
já tu pensaste e outros o disseram
com palavras mais belas que as minhas.
Escrevo apenas para matar o tempo.







José Luis García Martín














quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Éramos uma invenção tão boa











Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco.





Yehuda Amichai








quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Eu não sou dessas mulheres











Eu não sou dessas mulheres
 incapazes de amor e ternura. 
Eu sei o que é coragem e sangue,
 embora odeie o sacrifício e me repugne 
a vaidade que nasce da violência. 
Quero ser mulher de um mercenário, 
de um poeta ou de um mártir, é igual.
 Eu sei fitar os olhos dos homens, 
sei quem merece a minha ternura. 




 Amalia Bautista









terça-feira, 29 de janeiro de 2019

apenas











Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.




Mia Couto









domingo, 27 de janeiro de 2019

pelo amor











Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.




Fiama Hasse Pais Brandão










sábado, 26 de janeiro de 2019

então não existiria o tempo











Se chovesse (sempre) trezentos e sessenta e cinco dias por ano,
e as nuvens no céu se repetissem na cor,
na forma, na velocidade, e na lentidão;
e se o sol permanecesse robusto e alto, constante
como o último andar de um edifício (bem construído),
de calor assim assim mas repetindo assim assim
de calor da véspera;
se o mau e o bom tempo fossem uma linha única,
paralela aos dias; se o verão e o inverno
em vez de dois fossem um,
como uma pedra é um, e uma árvore é um,
se, enfim, quem amas permanecesse amado por ti,
hoje exactamente como ontem,
e daqui a trinta anos exactamente como hoje;
então não existiria o tempo,
e os relógios de pulso seriam pulseiras ruidosas,
mecânicas de mais para estarem tão próximas da mão
capaz de tocar com leveza.
E se não há tempo
não podemos trair.




Gonçalo M. Tavares, O Amor, in 1










domingo, 16 de dezembro de 2018

Tenho em mim esse atraso de nascença













Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.





Manoel de Barros











quinta-feira, 25 de outubro de 2018

é tão bonito













Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.




Amalia Bautista










sexta-feira, 13 de julho de 2018

como o barro espera a mão












Aguardo-te
como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito

Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.





Mia Couto














quinta-feira, 28 de junho de 2018

o meu labiríntico arvoredo













Gostava de te mostrar
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrada de sol
- vês? - aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas leves de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava - mas uivam os lobos -
- tu assustas-te.





















A voz do excesso













Não possui a palavra uma imediatez carnal, não é ela umbigo e boca, ritual de uma ressonância entre um e outro, o um no outro, como uma lâmpada na pele?

O desejo da escrita não será o desejo de percorrer um corpo poro a poro, uma língua com a sua língua?

Não é a língua a voz do excesso intraduzível, o reconhecimento do mundo como excesso?






António Ramos Rosa




terça-feira, 5 de junho de 2018

aceitar o dia












Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.






Rosa Alice Branco










quarta-feira, 30 de maio de 2018

tragam-me um homem

















Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.





Cláudia R. Sampaio, in Ver no Escuro








quinta-feira, 24 de maio de 2018

Isso é que seria recomeçar



















Melhor fora que viesses sem saber
 de mim o que quer que fosse. 
Isso é que seria recomeçar a valer
 e não apenas com o que te trouxe.
 Para que isto não ficasse viciado
 à partida, protegia metade da alma. 
A metade que, quando estou deitado,
 fica para baixo e me acalma.
 Que corpo afectivo e voraz
 me deixa assim contente e vivo? 
O corpo que sempre me traz 
razão activa ao meu ser passivo.
 Pediste-me o livro da emoção
 e nele não leste nenhum compromisso. 
Discutimos antes a decoração,
 um de nós tem de ceder nisso. 




 Helder Moura Pereira








sábado, 14 de abril de 2018

não percas pé














Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira pende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vontade não pode muito.
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.




Amalia Bautista











segunda-feira, 12 de março de 2018

azul











Azul. Era azul? Era a cor
que era, não a que pretendo
– ou seja, a que relembro.
O mar. Água, em todo o caso.
Vento por cima; ou era a voz
de alguém fazendo o ar bulir?
É na pele o que sinto
ou nos ouvidos soa? A sós
a praia. A sós, que não estou lá. 


Pedro Tamen










segunda-feira, 5 de março de 2018

Um Diadorim só para mim


















Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de

Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade.
Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo.
Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora.
Melhor alembro.
…………
O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em
mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente –
“Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer aquilo?
………
E como é que o amor desponta.
…..
Coração cresce de todo lado. Coração vige feito
riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas.
Coração mistura amores. Tudo cabe.
………
E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu
criei? Minha vida o diga. Se amor ?
... Diadorim tomou conta de mim.
………….
E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei.
……
Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus
mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava
com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. Não
era?
………………
Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu
……..
Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.
……….

Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as
surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.
……..
Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso,
de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às
loucas, gostasse de Diadorim,
…… 
no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de
empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em
Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas
demais vezes, sempre.
……
Abracei
Diadorim, como as asas de todos os pássaros
…….
Só se pode viver
perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a
gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um
descanso na loucura.
…….
amor é a gente querendo achar o que é da gente. 







guimarães rosa