terça-feira, 22 de outubro de 2019

a única coisa que corre é o tempo













São muitos dias
(e alguns nem tantos como isso...)
e começa a fazer-se tarde de um modo
menos literário do que soía,
(um modo literal e inerte
que, no entanto, não posso dizer-te
senão literariamente).
Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr;
a única coisa que corre é o tempo,
do lado de fora, porque dentro
a própria morte é uma maneira de dizer.
Caem co’a calma as palavras
que sustentaram o mundo,
e nem por isso o mundo parece
menos terreno ou impermanece.
Restam, é certo, alguns livros,
algumas memórias, algum sentido,
mas tudo se passou noutro sitio
com outras pessoas e o que foi dito
chega aqui apenas como um vago ruído
de vozes alheias, cheias de som e de fúria:
literatura, tornou-se tudo literatura!
E a vida? (Falo de uma vida
muda de palavras e de dias, uma vida nada mais que vida;
haverá uma vida assim para viver,
uma vida sem a si mesma se saber?)
Lembras-te dos nossos sonhos? Então
precisávamos (lembras-te?) de uma grande razão.
Agora uma pequena razão chegaria,
um ponto fixo, uma esperança, uma medida.





Manuel António Pina





daqui, para aqui








quinta-feira, 29 de agosto de 2019

recordar
















Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquanto te aperto nos meus braços.







Jacques Prévert















quarta-feira, 15 de maio de 2019

Se eu fosse a ti amava-me


















Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim. 
Não hesitava mais, fugia. 
Dava o que tens, o que tenho, 
para ter o que dás, o que me darias. 
Soltava o cabelo, chorava 
de prazer, cantava descalça, dançava, 
punha em fevereiro um sol de agosto, 
morria de prazer, não punha 
nenhum mas a este amor, inventava 
nomes e verbos novos, estremecia 
de medo perante a dúvida de que fosse 
só um sonho, fugia 
para sempre de ti, de ali, comigo. 
Se eu fosse a ti amava-me. 
Dizia que sim, vinha 
a correr para os meus braços, 
ou pelo menos, sei lá, respondia 
às minhas mensagens, às minhas tentativas 
de saber que é feito de ti, telefonava-me, 
que será de nós, dava-me 
um sinal de vida, se eu fosse a ti.


Juan Vicente Piqueras










domingo, 17 de fevereiro de 2019

uma vaga de luz










O que nos chama para dentro de nós mesmos
 é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
 Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
 e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
 Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
 pelo movimento, pela forma, pelo nome,
 voltamos ao zero irradiante, ao ver
 o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
 o que não tem tamanho, mas está agora
 engrandecido dentro do novo olhar.



Fiama Hasse Pais Brandão











quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Escrevo apenas para matar o tempo.










Nada digo que não tenha já sido dito.
Não procures novidades nos meus versos.
Amei sem ser amado, como tantos.
Fui jovem, como todos, sem o saber.
Pedi à arte coisas que tinha esquecido.
Apenas sei que de nada me serviram.
Tive um tesouro entre as mãos, tive
ouro e areia, luz e desconsolo.
Não procures novidades. O que digo
já tu pensaste e outros o disseram
com palavras mais belas que as minhas.
Escrevo apenas para matar o tempo.







José Luis García Martín














quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Éramos uma invenção tão boa











Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco.





Yehuda Amichai








quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Eu não sou dessas mulheres











Eu não sou dessas mulheres
 incapazes de amor e ternura. 
Eu sei o que é coragem e sangue,
 embora odeie o sacrifício e me repugne 
a vaidade que nasce da violência. 
Quero ser mulher de um mercenário, 
de um poeta ou de um mártir, é igual.
 Eu sei fitar os olhos dos homens, 
sei quem merece a minha ternura. 




 Amalia Bautista









terça-feira, 29 de janeiro de 2019

apenas











Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.




Mia Couto









domingo, 27 de janeiro de 2019

pelo amor











Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.




Fiama Hasse Pais Brandão










sábado, 26 de janeiro de 2019

então não existiria o tempo











Se chovesse (sempre) trezentos e sessenta e cinco dias por ano,
e as nuvens no céu se repetissem na cor,
na forma, na velocidade, e na lentidão;
e se o sol permanecesse robusto e alto, constante
como o último andar de um edifício (bem construído),
de calor assim assim mas repetindo assim assim
de calor da véspera;
se o mau e o bom tempo fossem uma linha única,
paralela aos dias; se o verão e o inverno
em vez de dois fossem um,
como uma pedra é um, e uma árvore é um,
se, enfim, quem amas permanecesse amado por ti,
hoje exactamente como ontem,
e daqui a trinta anos exactamente como hoje;
então não existiria o tempo,
e os relógios de pulso seriam pulseiras ruidosas,
mecânicas de mais para estarem tão próximas da mão
capaz de tocar com leveza.
E se não há tempo
não podemos trair.




Gonçalo M. Tavares, O Amor, in 1










domingo, 16 de dezembro de 2018

Tenho em mim esse atraso de nascença













Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.





Manoel de Barros











quinta-feira, 25 de outubro de 2018

é tão bonito













Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.




Amalia Bautista










sexta-feira, 13 de julho de 2018

como o barro espera a mão












Aguardo-te
como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito

Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.





Mia Couto














quinta-feira, 28 de junho de 2018

o meu labiríntico arvoredo













Gostava de te mostrar
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrada de sol
- vês? - aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas leves de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava - mas uivam os lobos -
- tu assustas-te.





















A voz do excesso













Não possui a palavra uma imediatez carnal, não é ela umbigo e boca, ritual de uma ressonância entre um e outro, o um no outro, como uma lâmpada na pele?

O desejo da escrita não será o desejo de percorrer um corpo poro a poro, uma língua com a sua língua?

Não é a língua a voz do excesso intraduzível, o reconhecimento do mundo como excesso?






António Ramos Rosa




terça-feira, 5 de junho de 2018

aceitar o dia












Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.






Rosa Alice Branco










quarta-feira, 30 de maio de 2018

tragam-me um homem

















Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.





Cláudia R. Sampaio, in Ver no Escuro








quinta-feira, 24 de maio de 2018

Isso é que seria recomeçar



















Melhor fora que viesses sem saber
 de mim o que quer que fosse. 
Isso é que seria recomeçar a valer
 e não apenas com o que te trouxe.
 Para que isto não ficasse viciado
 à partida, protegia metade da alma. 
A metade que, quando estou deitado,
 fica para baixo e me acalma.
 Que corpo afectivo e voraz
 me deixa assim contente e vivo? 
O corpo que sempre me traz 
razão activa ao meu ser passivo.
 Pediste-me o livro da emoção
 e nele não leste nenhum compromisso. 
Discutimos antes a decoração,
 um de nós tem de ceder nisso. 




 Helder Moura Pereira








sábado, 14 de abril de 2018

não percas pé














Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira pende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vontade não pode muito.
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.




Amalia Bautista











segunda-feira, 12 de março de 2018

azul











Azul. Era azul? Era a cor
que era, não a que pretendo
– ou seja, a que relembro.
O mar. Água, em todo o caso.
Vento por cima; ou era a voz
de alguém fazendo o ar bulir?
É na pele o que sinto
ou nos ouvidos soa? A sós
a praia. A sós, que não estou lá. 


Pedro Tamen