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sexta-feira, 5 de maio de 2017

eu sem saber o que fazer comigo













Havia um tempo em que esperar por ti
era consulta a meteorologia: 
preparar coração, achar ali, 
na coluna do lado, em geografia

de página, ou écran: coisa parecida
o sol bem desenhado, os raios com
a palavra por baixo, indicativa
de que amanhã o tempo ia ser bom.

Mas não era a palavra, era o ruído, 
eu sem saber o que fazer comigo, 
e o sol, caracol longo a demorar-

-se - assim era ele oblíquo de rimar;
porque eu sabia que o que ali rimava 
estava em saber que vinhas. E ficavas.






Ana Luísa Amaral


















quinta-feira, 8 de agosto de 2013

poema muito breve e muito raso


















Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.





Ana Luísa Amaral
















terça-feira, 6 de agosto de 2013

eu preciso das minhas solidões























Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.



Ana Luísa Amaral 












quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

E se tu não estiveres onde o poema está?














Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.




Ana Luísa Amaral





ultimamente as imagens têm sido quase todas daqui


















domingo, 7 de outubro de 2012

Devagar, meu amor, se for preciso

















Se for preciso, irei buscar um sol

para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz

Devagar, meu amor, se for preciso,

cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde

Na memória mais funda guardarei

em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros 
de cheiros e sabores


Só não trarei o resto

da ternura em resto esta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo.
quando a quiseres-




Ana Luísa Amaral










domingo, 8 de abril de 2012

o meu desejo de ti são lágrimas por dentro




























Olho-te pelo reflexo 
Do vidro 
E o coração da noite 

E o meu desejo de ti 
São lágrimas por dentro, 
Tão doídas e fundas 
Que se não fosse: 

o tempo de viver; 
e a gente em social desencontrado; 
e se tivesse a força; 
e a janela ao meu lado 
fosse alta e oportuna, 

invadia de amor o teu reflexo 
e em estilhaços de vidro 
mergulhava em ti. 




Ana Luísa Amaral















terça-feira, 23 de agosto de 2011

«Não te esqueças de mim.»
























Se eu como ele, o meu amor
tão anterior assim ao próprio amor,
o cajado e a pele por simbólica mão,
e o perfume que em mim,
então,

talvez eu te fizesse
sentir sem que o soubesse,
ao certo,
o chamamento à noite, falar
muito de noite e nela adormecer.
Longuíssima e final. Mas nova sempre.
Reencarnando os tempos e as datas.

De memórias tão curtas. E do fim
mais final do esquecimento.
Ter encontrado há pouco coisa dada
há quantos anos? Trinta?
«Não te esqueças de mim.»





ana luísa amaral























sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

se estivesses aqui






















Hoje, a saudade de ti: punhalada
de tinta muito branca,
o cheiro do que é novo, o cheiro da
doença a alastrar
Se estivesses aqui, dirias o meu nome
corrigias-me as coisas, e tudo estava
bem, mesmo que dentro de sentido
opaco
A tinta muito branca, o cheiro
que é do novo, aqui deste café,
corrigem-me a memória:
o cozinhares tão mal, a desarrumação
em tantos cantos, os nomes que criavas
para chamares as coisas
outra coisa
E os pedidos depois,
súplicas do silencio e do não choro,
tenacidades de viver igual,
e não ceder tanto – e não ceder
Hoje, em tão grande saudade,
minha amiga,
nem sei o que me resta:
Sonhar com o telefone a tocar,
e a voz,
ou eu a corrigir-me o hábito
do número –















Ana Luísa Amaral








imagem






















quarta-feira, 24 de novembro de 2010

não te vejo nunca mais



























Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais



 

Ana Luisa Amaral