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terça-feira, 15 de março de 2016

por dizer















Tudo o que ficou por dizer 
porque de repente 
era a hora do comboio 
ou um telefone longínquo tocava
 ou um qualquer acidente aconteceu. 
 Tudo o que ficou por dizer
 porque o pudor calou a voz
 porque um orgulho surdo a interrompeu 
porque as palavras talvez já nem chegassem 
ou era tarde 
e o cansaço aos poucos foi levando a melhor. 
 Tudo o que ficou por dizer
 porque a dor doía em demasia
 e era necessário que as palavras
 fossem capazes de ser claras como o ar
 porque as palavras traem 
como gumes de facas que nos cortam. 
 Tudo o que ficou por dizer
 porque a tristeza apertou tanto a garganta 
que nenhum som saía 
nem o olhar continha 
em desespero
 uma lágrima ainda assim contida.
 Tudo o que ficou por dizer
 porque o tempo urgente 
se esvaía
 e de repente já não estava 
no lugar a quem havia que o dizer
 quem ainda há pouco nos ouvia. 
 Tudo o que ficou por dizer 
e tudo
 o que ficou por dizer 
ou tudo
 sempre
 por dizer. 







 Bernardo Pinto de Almeida  
















sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Onde tu pousares as tuas mãos eu quero estar




















Onde tu pousas as mãos,

naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.





Bernardo Pinto de Almeida

















sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Há noites assim










 










Há noites assim não de outra coisa
que são de si mesmas cheias
até ser insuportável
até cada corpo cheirar exactamente
ao cheiro da sua alma. Há noites assim
que somos nós: Deus nos defenda
de tanta noite haver por dentro
por fora de nós mesmos.









Bernardo Pinto de Almeida





imagem

















sábado, 31 de outubro de 2009

não haver palavras és tu a desaparecer








A quem senão a ti direi
como estou triste? Mas se a tristeza vem
de tu não estares, como ta direi, como hei-
de juntar o que me está doendo ao ven-
to que não bate mais à tua porta? Eu sei


que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo


sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado


ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.


Não haver palavras és tu a desaparecer.