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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

falo contigo ou pelo menos tento























Com palavras usadas
gastas pelo tempo e o hábito,
cujo último alento já se diluiu.
Com palavras, como sonhos, queimadas pela vida,
nesta noite chuvosa, falo contigo
ou pelo menos tento, ligeiramente ébrio,
extraíndo cada sílaba do país do nunca jamais.
E sentindo essa repentina lucidez
com a qual, de imediato, rompemos a rotina de ser e
conhecer-nos,
sentindo, digo, essa rara sensação distante e exangue
do whisky, da noite e do silêncio;
do ardente desespero com que aceitamos a derrota,
dessa vertigem, às vezes -só às vezes -tua e minha,
na qual morremos sorrindo de olhos abertos.
Sentindo o pouco que é um beijo ao fundo da tua língua
ou os teus olhos espraiados nos meus,
ou as nossas mãos unidas no ar,
percorrendo um museu de assumidos fracassos.
Desfilam, batalhão desolado de fantasmas,
nomes e nomes de tão distintos ecos.
Pretendemos, com abolidos rostos, datas caducadas
e cidades inatingíveis, responder a uma velha questão
cuja resposta só a morte já conhece.
Anos e anos, voluntários exílios de seres e países,
os filhos que não quis ter, os que tu sim tiveste,
o tremor do desejo que ainda guardas na tua pele,
o meu eterno navegar de cama em cama,
reunem-se e afirmam o seu destino
frente à cerimónia do amanhecer.







Juan Luis Panero
















quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Tocas um corpo























Tocas um corpo, sentes-lhe o repetido tremor sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue. Observas-lhe o lânguido amolecimento, as suas sombras corporais, o seu desvelado esplendor.

Não há palavras.

Tocas um corpo; um mundo enche agora as tuas mãos, empurra o seu destino. Estira-se o tempo nos pulmões silva como um chicote rente aos lábios. As horas, o instante, detêm-se, extrais aí a tua pequena parcela de eternidade. Antes foram os nomes e as datas. A história tão clara e lúcida de dois rostos distantes. Depois aquilo a que chamas amor, talvez se transforme em promessa arrancada, muro erguido que pretende encerrar aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.
Não importa, agora nada importa.
Tocas um corpo, nele te fundes, apalpas a vida, real, comum.
Já não estás só.







Juan Luis Panero


















domingo, 22 de janeiro de 2012

já não estás só



















Tocas um corpo, sentes-Ihe o repetido tremor
sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue.
Observas-Ihe o lânguido amolecimento,
as suas sombras corporais, o seu desvelado esplendor.
Não há palavras. Tocas um corpo; um mundo
enche agora as tuas mãos empurra o seu destino.
Estira-se o tempo nos pulmões
silva como um chicote rente aos lábios.
As horas, o instante, detêm-se,
extrais aí a tua pequena parcela de eternidade.
Antes foram os nomes e as datas.
a história tão clara e lúcida de dois rostos distantes.
Depois aquilo a que chamas amor,
talvez se transforme em promessa arrancada,
muro erguido que pretende encerrar
aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.
Não importa, agora nada importa.
Tocas um corpo, nele te fundes,
apalpas a vida, real, comum.

Já não estás só.




Juan Luis Panero