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terça-feira, 5 de junho de 2018

aceitar o dia












Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.






Rosa Alice Branco










sábado, 27 de julho de 2013

dorme comigo











Castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo.
Dorme comigo. Agasalha-me as noites.
Imperfeito como ao amor convém
bebemos e falamos como se a vida fosse eterna.
Agora vou soletreando becos sem saída.
Não te importes amor.
Não te importes se estivermos ocupados
a arrumar os papéis ou desabotoar-me o vestido
porque resistimos à burocracia e ao cansaço.
Não te importes amor se hoje te amo tanto.
São horas. Levo a minha pele à rua.
Uma fome real de pão e do teu corpo.
É assim que se ama.
Contigo sinto "nós".
Com que alimento a imaginação?
É por isso que devemos saber escutar
o aroma da língua, 
o coração
e os nossos beijos são a língua delirante do poema.
Não te importes amor.




Rosa Alice Branco









quarta-feira, 12 de junho de 2013

escuta como se aproxima o próximo poema
















É tarde, falta aprender a deitar fora a madeira da alma, 
a não contaminar os animais com o vírus 
das metáforas sombrias. Falta talvez ser tarde, 
mas o homem expulsou-se do paraíso 
e cresceram-lhe orelhas para escutar a morte. 
Como pode olhar de frente o rosto da criança, 
com que sol se senta ao sol das maravilhas? 
Fala comigo um pouco mais. Ainda há passos 
que não demos, há trilhos que os ciganos deixaram 
para nós, há migalhas de pão pelos caminhos 
e talvez seja a hora de fazer com elas umas migas, 
de pedir ao mágico que tire do chapéu um vinho 
graduado, um coronel meio surdo a quem Alice 
perguntará as horas ou o capuchinho chamará «avó». 
Antes de sermos definitivamente comidos pelo lobo 
escuta como se aproxima o próximo poema.



Rosa Alice Branco





sábado, 23 de junho de 2012

Mas quando chegas


















De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.





Rosa Alice Branco











terça-feira, 5 de junho de 2012

O teu coração dorme comigo















Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.




Rosa Alice Branco









quinta-feira, 18 de agosto de 2011

...se





















...se lhes gritasse
"o amor entranha-se na mais pequena porção do espaço"
saberiam que falo do meu corpo?...







Rosa Alice Branco