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quinta-feira, 28 de junho de 2018

A voz do excesso













Não possui a palavra uma imediatez carnal, não é ela umbigo e boca, ritual de uma ressonância entre um e outro, o um no outro, como uma lâmpada na pele?

O desejo da escrita não será o desejo de percorrer um corpo poro a poro, uma língua com a sua língua?

Não é a língua a voz do excesso intraduzível, o reconhecimento do mundo como excesso?






António Ramos Rosa




quinta-feira, 2 de junho de 2016

quem és tu?

















Na grande confusão 

deste medo  
deste não querer saber  
na falta de coragem  
ou na coragem de  
me perder me afundar  
perto de ti tão longe  
tão nu 
tão evidente  
tão pobre como tu  
oh diz-me quem sou eu  
quem és tu?














antónio ramos rosa






















sexta-feira, 8 de abril de 2016

Se vivo, é só por ti, por ti
















Se entrego ao campo a erva

de um sol de cinza,
se apago com meu hálito todo o brilho,
se sou esta apagada lâmpada, esta fúria parada,
se escrevo estas palavras é porque sei que não sei.

Se quero ser, terei que te ouvir no silêncio,
no teu repouso inteiro, na penumbra do quarto.

Se vivo, é só por ti, por ti,
que fazes com que olhe e caminhe em frente,
para esse lugar, o nosso, o de todos, o de alguém.









António Ramos Rosa 






















quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A noite trocou-me os sonhos



























A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal
                                                                             [em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu
                                                                              [dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


António Ramos Rosa




















terça-feira, 24 de setembro de 2013

Estou vivo e escrevo sol
















Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde





antónio ramos rosa














sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Não posso adiar




















Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio.

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.

Não posso adiar o coração.






António Ramos Rosa
























quinta-feira, 27 de maio de 2010

quem és tu?





















Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?



 
António Ramos Rosa