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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Noites sem sexo













Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas, sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos que não chegam a iluminar as paredes do quarto.

Românticos que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados – mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer. Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também; e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago, batendo asas contra todas as paredes do corpo – não deixando
que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro e para o passado. Românticos que se encontram quando nenhum deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando a primeira borboleta sossega depois de um beijo em dívida.









Francisco José Viegas



daqui



imagem














sábado, 26 de janeiro de 2013

Por isso não me procures














Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.




Francisco José Viegas









terça-feira, 29 de novembro de 2011

das paixões só conheci as mais pequenas






















das paixões só conheci as mais pequenas

aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorecer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.













Francisco José Viegas








sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

de cada vez que o dia termina





































Envelheces tanto de cada vez que o dia termina e olhas para trás. Tens medo do começo do fim, das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos que foram belos - e não são mais. Envelheces muito quando o mundo contraria as pequenas coisas, sentes esse cansaço, nada a fazer.


Mesmo da poesia, que iluminava o tempo, vais colhendo apenas a amargura; os outros procuram nela sinais de um destino, datas curiosas, zangas, ventanias, armadilhas, mas tu sabes - e só tu sabes - que a tua vida é a tua vida e que o poema é empurrado por outro sopro, por um reflexo, um medo brutal, pela memória dos que morreram e levaram uma parte de ti, um pouco do que havia de comum entre ti e a vida, esse desperdício - às vezes -, esses momentos de glória em dias felizes.
Envelheces com os ossos que envelhecem. Envelheces sem querer.Por ti serias eternamente jovem, adolescente, e percorrerias as estradas das serras, as florestas, não para viveres sempre, mas para estares vivo mais um instante, porque o espectáculo é belo uma vez por outra. Envelheces pouco a pouco, porque as coisas não são o que foram nem são o que são.









Francisco José Viegas, Se me comovesse o amor



















segunda-feira, 2 de agosto de 2010

despede-te de mim


















































Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,
abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.
Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,
os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.











Francisco José Viegas















domingo, 9 de maio de 2010

se

























se regressar, será aos teus olhos que regresso.
os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
coincidências e nomes, razões. afasto-me
provavelmente de ti, embora secretamente.

é por isso estranha a forma como os acasos ardem
para sempre. a outro rio e sob outras sombras
regresso, devagar para não ferir o que antes amei
e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.








Francisco José Viegas
































 






terça-feira, 22 de dezembro de 2009

envelheces








Envelheces tanto de cada vez que o dia termina
e olhas para trás. Tens medo do começo do fim,
das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo
do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos
que foram belos – e não são mais. Envelheces muito
quando o mundo contraria as pequenas coisas,
sentes esse cansaço, nada a fazer.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

poesia
















A poesia não vale grande coisa para estes dias – é uma espécie de sobressalto, de língua que vem da sombra para dar às coisas um nome flutuante. Não há grande coisa para dizer sobre a poesia. Devia ler-se. Para dentro ou em voz alta. Não que faça falta “à cidadania” ou “à sensibilidade”. Às tantas, as pessoas viveriam melhor sem literatura – mas eu duvido. Faltar-lhes-ia um suplemento de beleza ou de devassidão.