Mostrar mensagens com a etiqueta jorge de sena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jorge de sena. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de maio de 2010

depois que o estio se volveu inverno






















Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.





 
de Jorge de Sena









sábado, 8 de maio de 2010

porque esperaste

























I

Passo a minha mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
Olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero tanto saber o que tu pensas.


II

O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e recurvada, passa brandamente.

Quero saber aquilo que nem sabes.


III

Aquilo que nem sabes- como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?

A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa de arrepio prévio.

III

Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?










Jorge de Sena