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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

cartas de marear
















vieram falar da tua partida, nas velas enfunadas que se viam ao longe,
no rumo sem rumo das cartas de marear que ficaram abertas em mim.

disseram-me: sabias que há uma âncora no cais que costumavas ser
mas que não amarra qualquer veleiro que ali aporte? e eu não sabia.



jose luis almeida


















domingo, 16 de agosto de 2015

remendavas velas em mim


















uma flor nem sempre é uma flor

(nunca o disse
quando via rosas
crescerem em ti)

um veleiro sem mastros pode navegar

(nunca o confessaste
quando remendavas
velas em mim)






josé luís almeida



























sábado, 8 de fevereiro de 2014

se




















se eu fosse louco não era um tonto parvo, que fico imóvel perante uma adversidade. se eu fosse louco esquecia que há gente e sociedade e convenções e essas tretas todas e saía já deste emprego estúpido e ia ter contigo. e não me importava nada com quem visse ou estivesse ou comentasse. punha-me a caminho e quando aí chegasse olhava-te, sorria, pousava uma mão em cada uma das tuas faces e beijava-te e beijava-te e beijava-te e o tempo parava e deixava de contar. e sendo louco queria estar despido de tudo o que queria deixar para trás quando te fosse beijar, chegar a ti como um animal, irracional mas puro. se não fosse apenas tonto tirava mesmo a roupa, o casaco logo à entrada, a camisa a subir as escadas, virava à esquerda, desapertava o cinto, livrava-me das calças, virava à direita, tirava o resto e quando chegasse a ti para te beijar estava nu. depois não existia mais nada, apenas nós os dois, e eu só queria saber do teu sabor, da tua boca molhada, desses lábios que queria mordiscar, da tua língua na minha, das palavras que não precisávamos de dizer e desses nossos beijos de mo ra dos em que sabíamos haver um todo maior que as partes, que num beijo assim se salva o mundo, que entre duas bocas há um abismo mas também um evereste e que não éramos loucos, loucos seríamos se não o fizéssemos.







josé luis almeida

























quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

um poema no teu corpo















gostava de escrever um poema no teu corpo
mas não queria que parecesse uma tatuagem
se eu soubesse ler esse alfabeto da nudez
levantava um pouco a pele do teu ventre
e era ali que escondia algumas letras soltas

depois, quando tomasse banho contigo
poderia imaginar essas páginas molhadas
e folhear os teus livros de letras minhas
ou agarrar-me a ti por não saber nadar

e ler-te como o nome de um salva-vidas










josé luís almeida


























sexta-feira, 14 de outubro de 2011

tu













e depois a gaivota voa sobre o lamento do cais e de novo relembro a noite em que partiste

num orgulho de caravela em busca de uma pérola que bem sabes impossível de colher
vogando na pele do oceano sem ler mais cartas de marear escritas nas estrelas
descobrindo na obscuridade o brilho da ária secreta da solidão das águas
e como este meu porto deixou de ser de abrigo para a nossa voz


mas nem essa recordação mantém o mesmo eco
pois sinto as palavras cada vez mais curtas
e já só queria lembrar-me desse mapa
navegar à deriva pelo teu corpo
percorrer os teus rumos
invadir o teu mar
rasgar o azul
sempre
tu




josé luís