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domingo, 3 de abril de 2016

Começam o dia louvando o imperfeito



















Começam o dia louvando o imperfeito:
o tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã

e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
Não terá de arrombar todas as portas 





José Tolentino Mendonça




(obrigada
muito
muito)





















sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

que fazes do teu tempo?
































Senhor, de todas as perguntas com que Tu me deixas, há uma que cresce dentro de mim:" que fazes do teu tempo?". Sabes, perco-me nas tarefas, nas voltas a dar, nesta e naquela responsabilidade, num imprevisto... E no meio disso tudo, confesso, o tempo da minha vida assemelha-se mais a uma fuga que a uma sementeira. Neste Advento queria pedir-te luz, para o modo de viver e repartir o meu tempo. Ajuda-me a realizar o meu trabalho e o meu lazer, o meu esforço e a minha pausa como tempos de dádiva e encontro. Como tempos que sejam apenas tempo, mas circulação de entusiasmoe afecto, circulação de vida. Peço-Te que a minha mão aberta, se torne muitas vezes manjedoura.


Padre José Tolentino Mendonça (postal entregue no dia de Natal na Capelo do Rato na missa do meio dia e meia)










sábado, 5 de dezembro de 2015

Tu estás tão perto























Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos





José Tolentino Mendonça
















domingo, 15 de setembro de 2013

uma palavra, uma jura, uma alegria


















Um sofrimento parecia revelar 
a vida ainda mais 
a estranha dor de que se perca 
o que facilmente se perde 
o silêncio as esplanadas da tarde 
a confidência dócil de certos arredores 
os meses seguidos sem nenhum cálculo 

por vezes é tão criminoso 
não percebermos 
uma palavra, uma jura, uma alegria 







josé tolentino mendonça















sábado, 18 de fevereiro de 2012

deixei de saber o tempo para chegar a ti

















As palavras são as mesmas
mas deixei de saber o tempo
para chegar a ti
durante meses e meses
tinha perdido o hábito
as histórias que de noite sonhas
o evidente esplendor que depois
não tomou nenhuma forma

que razão é a deste amor
que tanto se confunde 
com o medo

não dizias nada
tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro





José Tolentino Mendonça











sábado, 29 de outubro de 2011

Um nome arde tanto de repente













Um nome arde tanto
de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil


a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza







josé tolentino-mendonça







sábado, 21 de maio de 2011

Ainda espero o amor

























Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído 
espera a sala vazia 



primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa 



não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores 



e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro 
que grita abraçado à minha canção





José Tolentino Mendonça









sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

na única forma que tem de acompanhar-te o meu coração bate











 












Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate




José Tolentino Mendonça






 

imagem






(há muito tempo que não roubava uma imagem daqui...:)))










domingo, 20 de junho de 2010

preciso que me digas agora uma coisa inocente






































Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente

Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime.








 
José Tolentino Mendonça



























domingo, 11 de abril de 2010

Se me puderes ouvir





O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo.









José Tolentino Mendonça




















segunda-feira, 22 de março de 2010

«a que distância deixaste o coração»?





























Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»









José Tolentino Mendonça, A Que Distância Deixaste o Coração











quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

diz-me











diz-me se
na água reconheces o rumor
adormecido nos búzios



diz-me se o outono tem
a ver com as algas
com a incerteza das folhas



e se há um sentido oculto
no rodar das estações



diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo



diz-me se é certo
que o tempo
é o único olhar
prolongado nos dias



se a vida é o avesso da vida
e se há morte











josé tolentino de mendonça









sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Paga-me um café e conto-te a minha vida








«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro


outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu ,não,nunca choraste
por amores que se perdem


os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas ,acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois


«pago-te um café se me contares
o teu amor»


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

pouco importa






« (...) existe um momento
pouco importa qual
em que se reúnem ao acaso
diante de nós
todas as condições de uma vida
desesperada

José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

dizer-te



dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio


faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas

jose tolentino mendonça

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

tivesse ainda tempo e entregava-te o coração





A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes,estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar ,durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração


josé tolentino mendonça

terça-feira, 4 de agosto de 2009

deixei de saber o tempo para chegar a ti







As palavras são as mesmas
mas
deixei de saber o tempo
para chegar a ti

durante meses e meses
tinha perdido o hábito

as histórias que de noite sonhas
o evidente esplendor que depois
não tomou nehuma forma

que razão é a deste amor
que tanto se confunde
com o medo

não dizias nada
tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro.



José Tolentino de Mendonça