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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

essa solidão éramos nós










Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;
e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.
.
Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.
.
E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,
e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.
.
Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,
o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca.
.
Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que
nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.
.
Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?
.
Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,
sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.





Manuel António Pina











domingo, 30 de julho de 2017

um dia bastaria
















Só mais um dia, 
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro, 
um dia bastaria, 
em prosa que fosse. 

Mas dá-me para a melancolia
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas 
de pão na mesa, as falhas
da pintura do tecto,
as vozes das visitas, despropositadas, 
sinto-me sujo como um objecto, 
desapegado, desarrumado. 

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
- no quarto e no coração. 



Manuel António Pina




















quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

estou preso nos meus sentidos sem poder sair












Talvez sejas
a breve recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.






Manuel António Pina














sábado, 19 de janeiro de 2013

Senta-te aqui, fala comigo














As palavras fazem
sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),
um sentido justo,
feito de mais palavras.
(A impossibilidade de falar
e de ficar calado
não pode parar de falar,
escrevi eu ou outro).

Volto a casa.
ao princípio,
provavelmente um pouco mais velho.
As mesmas árvores,
mais velhas
a lembrança delas
passando sem tempo nos meus olhos,
como uma ideia feita ou um sentimento.

Entre o que regressa
e o que partiu um dia
ficaram palavras;

talvez (quem sabe?)
algum sentido.

Agora, como um intruso, subo as
escadas e abro a porta; e entro, vivo,
para fora de alguma coisa morta.

Senta-te aqui, fala comigo,
faz sentido
e totalidade à minha volta!





Manuel António Pina








terça-feira, 15 de janeiro de 2013

alguém me leve pela mão















Alguma coisa pensa em 
si própria em mim.
Em algum tempo ou em algum lugar
alguma coisa é real, pensando.

Às vezes quase lhe toco
quando não me perturbam os meus pensamentos.
E talvez quando faço
sem dar por isso os gestos de todos os dias
talvez então esteja muito perto sem o saber.

E alguém me leve pela mão por uma realidade
feita da minha vida e de coisas reais
a que pertencemos eu e o que pensa.




Manuel António Pina













domingo, 18 de setembro de 2011

(lembras-te?)



























Todas as palavras,


as que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração, e não reconheci,
ou desistiram e partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.





Manuel António Pina























quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Senta-te aqui, fala comigo



























As palavras fazem
sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),
um sentido justo,
feito de mais palavras.
(A impossibilidade de falar
e de ficar calado
não pode parar de falar,
escrevi eu ou outro).

Volto a casa.
ao princípio,
provavelmente um pouco mais velho.
As mesmas árvores,
mais velhas
a lembrança delas
passando sem tempo nos meus olhos,
como uma ideia feita ou um sentimento.

Entre o que regressa
e o que partiu um dia
ficaram palavras;

talvez (quem sabe?)
algum sentido.

Agora, como um intruso, subo as
escadas e abro a porta; e entro, vivo,
para fora de alguma coisa morta.

Senta-te aqui, fala comigo,
faz sentido
e totalidade à minha volta!










Manuel António Pina



















quarta-feira, 2 de junho de 2010

a meu favor tenho o teu olhar



































A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.



E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


















Manuel António Pina
















sábado, 8 de maio de 2010

Faço de conta que não é nada comigo
















Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.




Manuel António Pina















































quarta-feira, 3 de março de 2010

naquele tempo










 










Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,


agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.


O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.














manuel antónio pina
poemas
encontros de talábriga
1999