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terça-feira, 10 de maio de 2016

os trinta e três nomes de deus














Tentativa de um diário sem datas e pronomes pessoais





1
Mar pela manhã 

2
Murmúrio da
nascente nas
rochas
sobre os muros de pedra 

3
Vento de mar
a noite,
sobre uma ilha 

4
Abelha 

5
Voo triangular
dos cisnes 

6
Cordeiro recém-nascido
formoso ariete
ovelha 

7
O terno focinho
da vaca
o focinho selvagem
do touro 

8
O focinho
paciente do
boi

9
O rubro fogo
na lareira 

10
O camelo
coxo
que atravessa a
grande cidade atravancada
a caminho da morte 

11
A erva
O odor da erva 

12
‘ ‘’’’’’

13
A boa terra
A areia
e a cinza 

14
A garça real que
esperou toda a
 noite, quase gelada,
e pela aurora encontra
com que aplacar sua
fome 

15
O pequeno peixe
que agoniza
nas goelas da
garça real 

16
A mão,
que entra em
contacto
com as coisas 

17
A pele —
toda a superfície
do corpo 

18
O olhar
e o que ele vê 

19
As nove portas
da
percepção 

20
O torso
humano 

21
O som de uma
viola ou de uma
flauta indígena 

22
Um trago
de bebida
fresca ou
cálida 

23
O pão

24
As flores
que despontam
da terra
na primavera 

25
Sono
em um leito 

26
Um cego
que canta
e uma criança
enferma 

27
Cavalo que
corre
em liberdade 

28
A mulher —
os — cães 

29
Os camelos
que se banham
com seus filhotes
no difícil oued 

30
Sol nascente
sobre um lago
ainda meio
gelado

31
O relâmpago
silencioso
O trovão
fragoso 

32
O silêncio
entre dois amigos

33
A voz que vem
de levante,
entra pelo ouvido
direito
e ensina um canto 

22 de março 1982




marguerite yourcenar

















quarta-feira, 17 de abril de 2013

caminhei toda a noite para semear a tua recordação















Duas horas da manhã. Os ratos procuram nos caixotes os restos do dia morto: a cidade pertence aos fantasmas, aos assassinos, aos sonâmbulos. Onde estás tu, em que leito, em que sonho? Se te encontrasse, tu passarias sem me ver pois não somos vistos pelos nossos sonhos. Não tenho fome: esta noite não consigo digerir a minha vida. Estou cansada: caminhei toda a noite para semear a tua recordação. Não tenho sono: nem sequer tenho apetite da morte. Sentada num banco, embrutecida apesar de tudo pela aproximação da manhã, deixo de me lembrar que te procuro esquecer. Fecho os olhos... os ladrões não querem senão os nossos anéis, os amantes a carne, os pregadores as nossas almas, os assassinos a vida. Podem tirar-me a minha: desafio-os a nada lhe mudar. Inclino a cabeça para ouvir por cima de mim o remexer das folhas... Estou num bosque, num campo... É a hora em que o Tempo se disfarça de varredor e Deus talvez em trapeiro. Ele avarento, ele teimoso, ele que não consente que se perca uma pérola nos montes de cascas de ostras às portas das tabernas. Pai nosso que estais no céu... Verei alguma vez vir sentar-se a meu lado um velho de sobretudo castanho, com os pés enlameados por ter tido, para me alcançar, de atravessar sabe Deus que rio? Ele deixar-se-ia cair no banco, tendo na mão fechada um presente muito precioso que seria o bastante para tudo mudar. Abriria os dedos lentamente, um após outro, muito prudentemente, por que aquilo foge... Que seguraria ele? Uma ave, um germe, uma faca, uma chave para abrir a lata de conserva do coração?


marguerite yourcenar