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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

brincávamos a cair nos braços um do outro






















brincávamos a cair nos 
braços um do outro, como faziam 
as atrizes nos filmes com o marlon 
brando, e depois suspirávamos e ríamos 
sem saber que habituávamos o coração à 
dor. queríamos o amor um pelo outro 
sem hesitações, como se a desgraça nos 
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que 
o peito era todo em movimento e não 
sabíamos que a vida podia parar um 
dia. eu ainda te disse que me doíam os 
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o 
cansaço chegava e instalava-se no meu 
poço de medo. tu rias e caías uma e outra 
vez à espera de acreditares apenas no que 
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, 
quando percebíamos que o mundo era 
feito de distância e tanto tempo vazio, tu 
ficavas muito feminina e abandonada e eu 
sofria mais ainda com isso. estavas tão 
diferente de mim como se já tivesses 
partido e eu fosse apenas um local esquecido 
sem significado maior no teu caminho. tu 
dizias que se morrêssemos juntos 
entraríamos juntos no paraíso e querias 
culpar-me por ser triste de outro modo, um 
modo mais perene, lento, covarde. Eu 
amava-te e julgava bem que amar era 
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu 
nos teus braços, fazias um 
bigode no teu rosto como se fosses o 
marlon brando. eu, que te descobria como se 
descobrem fantasias no inferno, não 
queria ser beijado pelo marlon brando e 
entrava numa combustão modesta que, às 
batidas do meu coração, iluminava o meu 
rosto como lâmpada falhando 
a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não 
brinques assim, vais partir uma perna, vais 
partir a cabeça, vais partir o 
coração. e estava certa, foi tudo verdade






Valter Hugo Mãe



















quinta-feira, 13 de novembro de 2014

sem garantia







































procura-me por todos os lados, 
procura-me às escuras por todos os lados, estarei
algures, fremindo, criando bichos entre
os braços e as pernas, aguardando que
me salves. só assim te amarei, se souberes
descortinar o caminho para o lugar onde
me escondo, com medo, com fantasmas,
feito para ser amado apenas por quem,
avistando-me no fundo do poço, me
puder querer sem garantia de outra condição.





Valter Hugo Mãe














domingo, 17 de fevereiro de 2013

os teus caminhos estão em mim











persegue-me à toa. nunca
pares para pensar.

esquece as ruas. os teus
caminhos estão em
mim.

abre os olhos como o postigo
de um pequeno e delicado esconderijo, e
deixa o vento entrar.

recolhe o riso e fragrância terna
das flores na primavera. afasta
os lábios em pétalas vermelhas de
paixão. deixa-me roubar-te esse húmido pólen.

deixa que a sede se
sacie à tona dos teus olhos, onde
pretendo cegar.

desenlaço o corpo do teu e
demoro longo tempo a
perceber os meus contornos, assim
como a estátua demora a
esquecer a forma desfigurada
da pedra que lhe deu origem.

se te alheares, visito-te por
dentro de mim e juro
não acordar enquanto
não vieres pedir desculpa.

fico só, sabendo
que todos os objectos têm a
forma do teu corpo, e
todos os sons se reconduzem
à tua voz. não deambulo
pela casa – excessiva de ti – fujo-lhe
na ausência de movimento e
no desejo de ficar absolutamente
só. lembro-me de como não gostas
de me ver chorar.



valter hugo mãe






quarta-feira, 3 de agosto de 2011

não procuro um amor entre os cardos





















não procuro um amor entre os cardos,
se é entre os cardos que me vês, procura 
pensar que um amor não se perde por ali 
nem por ali se deve encontrar. se estou 
entre os cardos, meu amor, é para te esquecer 
e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti 
que procuro apenas dores, apenas fardos, 
para lentamente matar o meu coração. e 
se me vires cair, se entretanto me vires no chão, 
não me apanhes, não me ajudes, pensa que 
já ninguém passeia nos cardos e que o 
amor, para castigo dos que morrem, recomeça 
num outro lugar, seguramente à tua espera. 
depois sorri mesmo que te seja difícil, se por 
mais difícil que seja para mim ver-te sorrir 
é entre os cardos que devo partir, quando 
fugazmente te souber passando, tão parecida 
com ires buscar a felicidade sem mim e eu 
só mais uns segundos, já meus anjos preparados. 





valter hugo mãe














terça-feira, 17 de maio de 2011

fazer com que vente mais e mais lá fora































não estou certo de nada. gostava, contudo,
de acreditar que existes, para te esperar sem
angústia, talvez pôr a música mais baixo, ouvir
os vizinhos a conversar, preparar coisas para te
dizer, ler um livro, vestir-me. gostava de ter
por ti um amor convencional, sem ter de o
imaginar. com um jantar pelo meio, um passeio
no mais popular do parque, a ver cisnes e a
fugir dos cavalos. mas não estou certo de nada, e
mais fácil é fechar as portadas, escolher um cobertor
quente e fazer com que vente mais e mais lá fora






valter hugo mãe


















quarta-feira, 9 de junho de 2010

vou buscar-te ao fim da tarde




































vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim







 
valter hugo mãe










terça-feira, 1 de junho de 2010

adio-me





































já não te aguardo,
adio-me
























valter hugo mãe



[obrigada pelos poemas, volta ate mim]









sexta-feira, 7 de maio de 2010

numa loucura propositada














Vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

Vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim








Valter Hugo Mãe














quarta-feira, 10 de março de 2010

...as situações eram maiores que o seu pensamento ...






















o américo chegou ao pé de nós, dobrou-se sobre o meu ouvido e disse-me, a sua filha está a chorar no gabinete do doutor bernardo. está sozinha, senhor silva, não consegue ir-se embora. levantei-me. fui ao gabinete do doutor bernardo e vi a minha elisa aterrada como ficava desde pequenina quando as situações eram maiores que o seu pensamento e o seu coração não sabia como parar de sofrer. abracei-a e beijei-a. precisava ainda de mim aquela mulher de quarenta e nove anos. era ainda pequena, como acho que somos todos nós para as coisas mais tristes.














a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe








 























quarta-feira, 25 de novembro de 2009

uma vontade grande







trinta cisnes no lago dos teus olhos. foi o que disse. não significa nada. não poderiam aí nadar. foi uma imagem. uma ideia. uma vontade grande de dizer que te amo e que vejo em ti tudo quanto sendo impossível faria da vida um lugar perfeito

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

não é sobre a solidão








não é sobre a solidão,

pouco me importa quem me

desviou palavra, é sobre

a tua ausência no lugar

íngreme da minha pele, por isso

cairei implume telhado abaixo

debulhada no coração


valter hugo mãe