quarta-feira, 17 de março de 2010

não adianta nada




























Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.

 
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.








 

Gonçalo M. Tavares
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 16 de março de 2010

é da tua mão que eu preciso agora


























Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coisas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara principia a estragar-se e a gente
dizem
envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde.











antónio lobo antunes
















segunda-feira, 15 de março de 2010

ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento


















…Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?...












Inês Pedrosa










quinta-feira, 11 de março de 2010

nada sei da vida











 



Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.












Miguel Torga












 

quarta-feira, 10 de março de 2010

...as situações eram maiores que o seu pensamento ...






















o américo chegou ao pé de nós, dobrou-se sobre o meu ouvido e disse-me, a sua filha está a chorar no gabinete do doutor bernardo. está sozinha, senhor silva, não consegue ir-se embora. levantei-me. fui ao gabinete do doutor bernardo e vi a minha elisa aterrada como ficava desde pequenina quando as situações eram maiores que o seu pensamento e o seu coração não sabia como parar de sofrer. abracei-a e beijei-a. precisava ainda de mim aquela mulher de quarenta e nove anos. era ainda pequena, como acho que somos todos nós para as coisas mais tristes.














a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe








 























segunda-feira, 8 de março de 2010

dois braços







 



















Deve haver um lugar onde um braço
E outro braço sejam mais que dois braços 
Um ardor de folhas mordidas pela chuva,
A manhã perto nem que seja de rastos.
















Eugénio de Andrade, o peso da sombra













quinta-feira, 4 de março de 2010

te amo








 









Te Amo

Te amo de uma manera inexplicable
De una forma inconfesable
De un modo contradictorio

Te amo

Con mis estados de ánimo que son muchos
Y cambian de humor continuamente
Por lo que ya sabes,

El tiempo
La vida
La muerte

Te amo

Con el mundo que no entiendo
Con la gente que no compreende
Con la ambivalencia de mi alma
Con la incoherencia de mis actos
Con la fatalidad del destino
Con la conspiración del desejo
Con la ambigüedad de los hechos

Aún cuando te digo que no te amo, te amo
Hasta cuando te engaño, no te engaño
En el fondo, ilevo a cabo un plan
Para amarte mejor

Te amo.

Sin reflexionar, inconscientemente,
irresponsablemente, involuntariamente,
por instinto
por impulso, iracionalmente
En afecto no tengo argumentos lógicos
ni siquiera improvisados
Para fundamentar este amor que siento por ti,
que surgió misteriosamente de la nada,
Que no ha resuelto mágicamente nada
Y que milagrosamente, de a poco, con poco ya nada
Ha mejorado lo peor de mi

Te amo.

Te amo con un cuerpo que no piensa
Con un corazón que no razona,
Con una cabeza que no coordina

Te amo

incomprensiblemente
Sin preguntarme por qué te amo
Sin importarme por qué te amo
Sin cuestionarme por qué te amo

Te amo

sencillamente porque te amo
Yo mismo no se por qué te amo






 





gian franco pagliaro





 







quarta-feira, 3 de março de 2010

naquele tempo










 










Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,


agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.


O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.














manuel antónio pina
poemas
encontros de talábriga
1999






 
 
 
 
 
 
 














segunda-feira, 1 de março de 2010

For your lover give some time




























It was your birthday yesterday
I gave a gift that almost took your breath away
But to be honest I nearly left it on the train
For your lover give some time
You talk forever on the phone
To your mother and with my thoughts I'm left alone
Now and then I think : how strange our love has grown
For your lover give some time

I will give up these cigarettes
Stay at home and watch you mend the tears in your dress
Have your name in a rose tattooed across my chest
And be your lover for all time

Maybe I will drink a little less
Come home early and not complain about the death
And give you flowers from the graveyard now and then
For your lover give some time


I think of places that I've seen
A skipping stone across the ocean I have been
A rootless man with no one else to share my dream
And for my lover gave no time

Here's is a toast to you Helene
To all the cinemas we ran in from the rain
Laughing clutching soaking newspapers to your face
And for your love you gave some time

I will give up these cigarettes
Stay at home and watch you mend the tears in your dress
Have your name in a rose tattooed across my chest
And be your lover for all time

Maybe I will drink a little less
Come home early and not complain about the death
And give you flowers from the graveyard now and then
And for my lover give some time
For your lover give some time












quase































sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

guardar um rio

















 




É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.











 
Jorge de Sousa Braga in "O Poeta Nu"
































quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

palabras


















20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido
ya sabes cosas de viejos
requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro destino
tu bajabas la persiana
yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
casi como ignorando el sabor
del la soledad compartida
quise hacerte una cancion
para cantar despacito
como se duerme a los niños
y ya ves,solo palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan ni se estorban
se soportan amistosas.
mas no son una cancion
que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,estan llegando...
los frios.
20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido





































segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Acontece na vida de toda a gente



















 












 


Acontece na vida de toda a gente. De repente, a porta que se fechou entreabre-se, a grade que se acabou de descer volta a erguer-se, o não definitivo já não é senão um talvez, o mundo transfigura-se, um sangue novo corre-nos nas veias. É a esperança. Pena suspensa. O veredicto de um juiz, de um médico, de um cônsul fica adiado. Uma voz anuncia-nos que nem tudo está perdido. Trémulos, com lágrimas de gratidão nos olhos, passamos para o aposento seguinte, onde nos pedem para esperarmos, antes de nos lançarem no abismo.








 
Nina Berberova, Terra de Ninguém

























quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

desprender

















 






Há uma bala-pétala dentro de cada corpo
o desprender contínuo da essência
que traça pelo espaço o inacessível caminho









Maria José Botelho




















terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Preciso urgentemente









 





 
Preciso urgentemente de adquirir meia dúzia de valores absolutos,
inexpugnáveis e impenetráveis,
firmes e surdos como rochedos.

Preciso urgentemente de adquirir certezas,
certezas inabaláveis, imensas certezas, montes de certezas,
certezas a propósito de tudo e de nada,
afirmadas com autoridade, em voz alta para que todos oiçam,
com desassombro, com ênfase, com dignidade,
acompanhadas de perfurantes censuras no olhar carregado, oblíquo
(...)





excerto de antonio gedeão















sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

tanto que fazer










 







 

«Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê »





cecilia meireles






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

senão para escrever












 









«Trago-te debaixo da minha pele. Apanhaste-me desprevenido. Atingiste-me o coração, pecado meu. E agora é tarde para tudo senão para escrever. O teu coração tão branco a bater perto de mim. Embora o não ouvisse sei que estava lá.»






pedro paixão in ladrão de fogo










segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nunca são as coisas mais simples que aparecem





















Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.




nuno judice











quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

a olhar o que os braços não alcançam

























Minha querida, as tulipas vermelhas que deixaste sobre a mesa estão a morrer, a perder a cor. A casa está vazia, inundada de silêncios. Espero que estejas a fazer as malas para vires. Mas podes chegar sem malas, despida por fora ou por dentro. Gosto de ti com caracóis e sem caracóis. De chapéu e sem chapéu. Adoro sobretudo a maneira como dizes o meu nome que só a ti pertence. Não gosto nada de ti quando és má. Tu só és feia para me recordares a tua exímia perfeição, o contorno das tuas ancas violentas. Para poder ainda gostar mais. Minha miúda pequena, vem. Os passeios junto ao rio sem ti não são os mesmos. Faltam os demorados passos, as súbitas paragens. É por isso que estou quieto, a minha inteligência pousada sobre as mãos a olhar o que os braços não alcançam. Vou ficar assim até tu chegares, tapando-me a vista com o fogo dos teus dedos, a cicatriz aberta a meio do corpo.










pedro paixão, mensagem in o mundo é tudo o que acontece












sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

no me quites tu risa


























Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, por que tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría.







Pablo Neruda






quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Devias estar aqui rente aos meus lábios













devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um - eu vi a terra limpa no teu rosto, só no teu rosto e nunca em mais nenhum










eugénio de andrade














domingo, 24 de janeiro de 2010

essa mulher sentada diante do computador















Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz electrónica
e pensa no mar.
 


 
Marina Colasanti












sábado, 16 de janeiro de 2010

i wish you love








every man has his own destiny, the only imperative is to follow it, to accept it, no matter where it leads him




henry miller







"i wish you love"