sexta-feira, 4 de junho de 2010

...e perguntar o que aconteceu


























Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.






Eugénio de Andrade







quinta-feira, 3 de junho de 2010

enquanto te espero






































enquanto te espero
derretem-se as horas
mulheres de Maio tecem véus de viúva
vêm depois os pessegueiros
e tudo é violeta

ponho a mesa à sombra do sorriso
e começo a servir minutos de prata
vem o vinho maduro
colheita especial da saudade
vem a noite suculenta
regada de ervas de alma picada
e nada me prende

enquanto te espero
partem novos barcos

e eu sem leme sem ti para vencer este monstro
este quarto este ocidente isolado.














Isabel Mendes Ferreira













ciúme




































Tenho ciúme dos teus olhos que não vejo
mas me enxergam
da voz que me sussurra
mas não ouço
do beijo que não troco
mas me cala
Ciúme do calor das mãos
que não me tocam
do ar que respiras
no espaço que não me pertence
Ciúme não-doença
mas que dói, machuca
quando a ausência faz-se escura
como noite ou vendaval
Ciúme da distância
que separa
o bem do mal
o que dizes
do que penso
o que quero
do não posso
o que grito
do que abafo
nesse início
do meu fim...
Ciúme
da distância
que te separa
de mim.








Isabel Machado










quarta-feira, 2 de junho de 2010

Escreve-me, peço-te














 















imagem





 









 



(...) Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua — e a ausência alastra em mim, cortante.
Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo das suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
Mantenho-me imóvel, tacteio o teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.

















Al Berto








 




a meu favor tenho o teu olhar



































A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.



E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


















Manuel António Pina
















...antes de te conhecer

























O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias, como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer. Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava. Era a tua, a tua voz que dizia as palavras da vida. Era o teu rosto. Era a tua pele. Antes de te conhecer, existias nas árvores e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde. Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.









José Luís Peixoto
























terça-feira, 1 de junho de 2010

Não me interessa saber

























Não me interessa saber o que fazes para ganhar a vida
quero saber o que desejas ardentemente, se ousas sonhar em atender
aquilo pelo qual o teu coração anseia.


Não me interessa saber a tua idade
quero saber se arriscarás parecer um tolo por amor,
por sonhos, pela aventura de estar vivo.


Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a tua lua
quero saber se tocaste o âmago da tua dor,
se as traições da vida te abriram
ou se te tornaste murcho e fechado por medo de mais dor!


Quero saber se podes suportar a dor, minha ou tua;
sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la.
quero saber se podes aceitar alegria, minha ou tua,
se podes dançar com abandono e deixar que o êxtase te domine
até às pontas dos dedos das mãos e dos pés,
sem nos dizeres para termos cautela, sermos realistas,
ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos.


Não me interessa se a história que contas é verdade.
quero saber se consegues desapontar outra pessoa
para ser autêntico contigo mesmo,
se podes suportar a acusação de traição e não traíres a tua alma.


Quero saber se podes ver beleza
mesmo que ela não seja bonita todos os dias,
e se podes buscar a origem da tua vida na presença de Deus,
quero saber se podes viver com o fracasso, teu e meu e ainda,
à margem de um lago, gritar para a lua prateada: “Posso!”


Não me interessa onde moras ou quanto dinheiro tens
quero saber se podes levantar-te após uma noite de sofrimento e desespero,
cansado, ferido até aos ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos.


Não me interessa saber quem és e como vieste parar aqui
quero saber se ficarás comigo no meio do incêndio
e não te acovardarás.


não me interessa saber onde, o quê, ou com quem estudaste
quero saber o que te sustenta a partir de dentro,
quando tudo o mais se desmorona.
quero saber se consegues ficar sozinho contigo mesmo
e se, realmente,
gostas da companhia que tens nos momentos vazios.















Jean Houston

















adio-me





































já não te aguardo,
adio-me
























valter hugo mãe



[obrigada pelos poemas, volta ate mim]









...mas espera-me muito




























Espera-me e eu voltarei,
mas espera-me muito.
Espera-me quando cair a neve
e chegarem as chuvas tristes,
quando chegar o calor,
não deixes de esperar.
Espera-me, quando já
ninguém esperar e se tiver
esquecido já o ontem.
Espera-me mesmo que as cartas
não cheguem de longe.
Espera-me quando todos
estiverem já fartos de esperar.
Espera-me e eu voltarei,
não ames – peço-te –
quem repetir de memória
que é tempo já de olvidar;
mesmo que mãe e filho julguem
que eu não existo mais.
Deixa que os amigos, ao lume,
se cansem de esperar e bebam
vinho amargo em memória de mim.
Espera-me e não
te apresses a beber com eles.
Espera-me e eu voltarei,
para que a morte se encha de raiva.
O que nunca me esquecer
dirá talvez de mim: coitado, teve sorte.
Jamais compreenderão
aqueles que jamais esperaram.
Tu é que me salvaste do fogo.
De como sobrevivi
saberemos tu e eu,
porque simplesmente me esperaste,
como ninguém me esperou.









Konstantin Simonov





















estaré donde menos lo esperes
































Te dejo con tu vida
tu trabajo
tu gente
con tus puestas de sol
y tus amaneceres.

Sembrando tu confianza
te dejo junto al mundo
derrotando imposibles
segura sin seguro.

Te dejo frente al mar
descifrándote sola
sin mi pregunta a ciegas
sin mi respuesta rota.

Te dejo sin mis dudas
pobres y malheridas
sin mis inmadureces
sin mi veteranía.

Pero tampoco creas
a pie juntillas todo
no creas nunca creas
este falso abandono.

Estaré donde menos
lo esperes
por ejemplo
en un árbol añoso
de oscuros cabeceos.

Estaré en un lejano
horizonte sin horas
en la huella del tacto
en tu sombra y mi sombra.

Estaré repartido
en cuatro o cinco pibes
de esos que vos mirás
y enseguida te siguen.

Y ojalá pueda estar
de tu sueño en la red
esperando tus ojos
y mirándote.









Mario Benedetti











segunda-feira, 31 de maio de 2010

...e aguardo os sonhos





















Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro



onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.



Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos



que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar esta cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa



e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.











Maria do Rosário Pedreira











domingo, 30 de maio de 2010

e uma noite a vida começa a doer muito





























Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

E uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.







Alice Vieira









sábado, 29 de maio de 2010

...antes que eu parta outra vez, de vez






























Agora, que regresso, são novos os retratos
sobre o tampo da mesa; e outros também
os livros e os enredos e as histórias
concebidas sobre a cama onde antes se
demorava o meu perfume se eu partia.

é como se voltasse apenas de perfil; e
do romance outrora longamente entalado
entre os dedos já só sobrasse uma lombada
estreita, acanhada na estante. Havia um
sonho exausto sobre as minhas pálpebras
antes de ter chegado; e agora,

que regresso, não tenho voz que o diga -
sou de lugar nenhum, ninguém me tem.
chama-me, se quiseres. Talvez a porta se abra
se disseres o meu nome devagar. Di-lo
mais uma vez dentro da minha boca, a trocar
o corpo com o meu. Assim, antes que eu parta
outra vez, de vez, para um lugar qualquer
onde não mais se espere o que não volta.







Maria do Rosário Pedreira






sexta-feira, 28 de maio de 2010

são poucas as palavras que nos doem de verdade
























No fim de contas são poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos fazem bater o coração, e menos
ainda com o correr do tempo.
No fim de contas, são pouquíssimas as coisas
que na verdade importam nesta vida:
poder amar alguém e ser amado,
não morrer depois dos nossoa filhos.







 

Amalia Bautista











tu e eu, devagarinho












Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.



Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.



E se a tarde vier, deixá-la vir...
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas...



De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.









Reinaldo Ferreira

 









cuidandote




















 





Despacito cuando tu dormias
Ella te hablaba, te preguntaba, te protegia
Ella prometio darte todo
Pero solo pudo darte lo que tubo
Y para ti lo mas hermoso
Era amanecer junto a sus ojos
Iluminando el mundo



Pero los pagaros no pueden ser enjaulados
Porque ellos son del cielo, ellos son del aire
Y su amor es demasiado grande para guardarlo



Volaste alrededor de la luna con ella
Le pediste que nunca se fuera
Y ella respondio:
Mi amor siempre estara... cuidantote



Y la dejaste volar
Y tus ojos lloraron hasta doler
Pero solo tu sabias
Que asi tenia que ser
Que asi... tenia que ser...



Ella prometio darte todo
Pero solo pudo darte lo que tubo
Y para ti lo mas hermoso
Era amanecer junto a sus ojos
Iluminando el mundo



Pero los pagaros no pueden ser enjaulados
Porque ellos son del cielo, ellos son del aire
Y su amor es demasiado grande para guardarlo



Y la dejaste volar
Y tus ojos lloraron hasta doler
Pero solo tu sabias
Que asi tenia que ser



Y la dejaste volar
Y sus ojos lloraron hasta doler
Pero solo ella sabia
Que asi tenia que ser



Y la dejaste volar
Y tus ojos lloraron hasta doler
Pero solo tu sabias
Que asi tenia que ser
Que asi... tenia que ser...