quarta-feira, 9 de junho de 2010

vou buscar-te ao fim da tarde




































vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim







 
valter hugo mãe










dá-me qualquer coisa que me pareça eterno
















































Conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.







José Rui Teixeira













terça-feira, 8 de junho de 2010

Precisava falar-te ao ouvido













Sophie Pawlak









Precisava falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa
E do chão.





Daniel Faria
















fingir que está tudo bem






























Fingir que está tudo bem:
o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro,
rastos de chamas dentro do corpo,
gritos desesperados sob as conversas.

fingir que está tudo bem:
o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo,
tempestades de medo nos lábios a sorrir.
olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio
e chuva que não se pode dizer: amor e morte:

fingir que está tudo bem:
ter de sorrir: um oceano que nos queima,
um incêndio que nos afoga.





 


 
José luís Peixoto













segunda-feira, 7 de junho de 2010

...passei a vida a enganar-me






















Pensava eu que a felicidade deveria estar escondida naqueles momentos de perturbação em que me descobria no teu olhar. Enganei-me, passei a vida a enganar-me.
É tarde. Apago-me vagarosamente.
Deus talvez esteja no fundo do mar, na claridade das águas.
Dentro de mim sinto a melancolia da areia lavada pelo seu movimento invisível, eterno.













al berto













O nome que se dá à ausência

































O sótão:
era ali que o mundo começava.
Ainda não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa de música, a tua concha
de areia.



E ainda
o não sabes hoje.



Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio.



E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.









Albano Martins











fica esta noite












































imagem


















Preciso amar-te por isso digo fica esta
noite, depois os dias do nosso trabalho
farão luz sobre o tempo. Tenho na cabeça
a tempestade, tantas vezes recordo aquele
corpo que não sabia do prazer que me dava,
tantas vezes acordo e o seu nome quase
me escapa dos lábios, reconheço as feridas,
os golpes todos, se lembro é porque quero
esquecer. Fica esta noite, mais outra, o
tempo que demora a cumprir a decisão de
amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias
com algumas opiniões parecidas e ódios ás
coisas culpadas. A gente que diz coisas
de silencio, os andaimes da cidade tapando
saídas, as horas certas quando dizemos
adeus. E que sentido têm estas lágrimas?
Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim,
apenas vou precisar amar-te, depressa



Venho de distribuir tarefas e de ouvir ferro contra ferro,
o cheiro a tinta, barcos em
areia artificial, útil mentira que me conto.
Regresso à cidade de onde nunca soube partir,
pelo caminho passam aos olhos os lugares de
jogar á bola, ao berlinde, o quartel a que
conseguiram que fugisse. Regresso e não sei
se me esperam, alguma vez acreditei na
felicidade? Não voltarei a falhar, os pesadelos
que este corpo agita são meus também, as suas
palavras têm menos peso que o murmurio do
prazer, vou dizer-lhe isto, deves acreditar,
trago mais um disco, vamos a outra exposição,
vamos dar as mãos junto ao mar. Não gosto
da tarefa de ajudar a esquecer, preciso tanto
amar-te, vou ajudar a esquecer.











Helder Moura Pereira
















domingo, 6 de junho de 2010

todas as vidas gastei


































Todas as vidas gastei
para morrer contigo.
E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.
Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.







Mia Couto







sábado, 5 de junho de 2010

é no silêncio










































é no silêncio
que melhor ludibrio a morte
não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir













al berto

















e sabes,




















 








E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que elas têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.













Rui Coias












sexta-feira, 4 de junho de 2010

mas tu falaste de repente no meio do teu sono






































Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.





 
Maria do Rosário Pedreira











a minha solidão não é uma invenção




































A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites estreladas...

...Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

...Mas este sufocar entre coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há portas
para o Calafrio.

...Mas este rir-me de repente
no poço das noites amarelas...
- única chama consciente
com boca nas estrelas.

...Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a pele o teu suor)
- sem carne em comum
com o mundo em redor.

...Mas este haver entre mim e a vida
sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida
o sabor da própria sede.

...Mas este sonho indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que não piso
o mesmo chão do pobre e do vagabundo.

...Mas este saber que tudo me repele
no vento vestido de areia...
E até, quando a toco, a própria pele
me parece alheia.

Não. A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar o céu estrelado...

...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.










José Gomes Ferreira

















...e perguntar o que aconteceu


























Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.






Eugénio de Andrade







quinta-feira, 3 de junho de 2010

enquanto te espero






































enquanto te espero
derretem-se as horas
mulheres de Maio tecem véus de viúva
vêm depois os pessegueiros
e tudo é violeta

ponho a mesa à sombra do sorriso
e começo a servir minutos de prata
vem o vinho maduro
colheita especial da saudade
vem a noite suculenta
regada de ervas de alma picada
e nada me prende

enquanto te espero
partem novos barcos

e eu sem leme sem ti para vencer este monstro
este quarto este ocidente isolado.














Isabel Mendes Ferreira













ciúme




































Tenho ciúme dos teus olhos que não vejo
mas me enxergam
da voz que me sussurra
mas não ouço
do beijo que não troco
mas me cala
Ciúme do calor das mãos
que não me tocam
do ar que respiras
no espaço que não me pertence
Ciúme não-doença
mas que dói, machuca
quando a ausência faz-se escura
como noite ou vendaval
Ciúme da distância
que separa
o bem do mal
o que dizes
do que penso
o que quero
do não posso
o que grito
do que abafo
nesse início
do meu fim...
Ciúme
da distância
que te separa
de mim.








Isabel Machado










quarta-feira, 2 de junho de 2010

Escreve-me, peço-te














 















imagem





 









 



(...) Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua — e a ausência alastra em mim, cortante.
Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo das suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
Mantenho-me imóvel, tacteio o teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.

















Al Berto








 




a meu favor tenho o teu olhar



































A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.



E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


















Manuel António Pina