quarta-feira, 30 de março de 2011

definitivamente só





















sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivessemos dado um ao outro ter-nos-iamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queriamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido o teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só

Al berto





















segunda-feira, 28 de março de 2011

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas
















 











 
Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.


Maria do Rosário Pedreira


















quarta-feira, 23 de março de 2011

eis-me acordado















 






Eis-me acordado
Com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
Estas fotografias onde cruzei os dias sem me deter
E por detrás de cada máscara desperta
A morte de quem partiu e se mantém vivo...

A luz secou na orla desértica da cidade
Escrevo para sobreviver
Como quem necessita de partilhar um segredo...

Este corpo em que me escondi... gastou-se...

Quantas noites permanecerão intactas no fundo do mar?
O rosto ainda jovem
Foi o tesouro de seivas que me entonteceu
Pelo corpo condeno-me à vida
De susto em susto à inutilidade da escrita...

Mas eis-me acordado
Muito tempo depois de mim
Esperando por alguma fulguração do corpo esquecido
À porta do meu próprio inferno...




Al Berto




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sexta-feira, 18 de março de 2011

nós estamos aqui para chegar de vez



























a minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
num trilho de mata
num banco de pedra,
num portão verde dividindo
o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.

Menina do rio na tua canoa de silêncios, a tua voz enrola-se na minha voz como prédios
e sombra numa cidade, como leite e açúcar na infância, como
o destino de um navio.
Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver, para te ver uma bússola de neve,
uma corda vermelha, a destreza de um telhado através dos
dias.
Tu não precisas falar uma outra língua, o persa é uma língua que nos chega! Tu não precisas oferecer-me
portas e milhares de portas, basta que apareças.
Que apareças nesta fogueira de bruxas, na inquisição canina de uma época longe, muito longe,
dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.

Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez.






Vasco Gato






quinta-feira, 17 de março de 2011

but if I have to go























 






 


And if I have to go, will you remember me?
Will you find someone else, while I'm away?
There's nothing for me, in this world full of strangers
It's all someone else's idea
I don't belong here, and you can't go with me
You'll only slow me down

Until I send for you, don't wear your hair that way
If you cannot be true, I'll understand
Tell all the others, you'll hold in your arms
That I said I'd come back for you
I'll leave my jacket to keep you warm
That's all that I can do

And if I have to go, will you remember me?
Will you find someone else, while I'm away?




tom waits














terça-feira, 15 de março de 2011

e tudo recomeça









 










Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:
assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.







Nuno Júdice





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domingo, 13 de março de 2011

O meu amor





















O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
São como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.


O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto-
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.


O meu amor não se deixa dizer- é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.


O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.







Maria do Rosário Pedreira






















segunda-feira, 7 de março de 2011

há dias assim








 





 








 

há dias em que acordamos e percebemos tudo
o recorte das cidades no horizonte
a distância que há nos caminhos que rasgam os corações
como se fossem searas de trigo
o nome de certas coisas que só sentimos num abraço

depois percorremos a mão pelo granito
como se fossemos o tempo
e como se a vida não fosse mais do que uma claridade
que invade pela frincha da porta o quarto escuro

é então que descobrimos
num desses rostos com que cruzamos o olhar
que a vida podia ser outra
e que seríamos felizes num outro sorriso
se lhe entregássemos inteiros os nossos lábios

há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema.







José Rui Teixeira





















sábado, 5 de março de 2011

E na palavra me sustento em ti


















Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.

Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.

E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.






Daniel Faria


















terça-feira, 1 de março de 2011

(...)














 





(...) Amanhã, ou enquanto dormes
- agora mesmo -, vou pensar em ti.
Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele,
e o movimento dos dias passe como aves
que perdem o sentido do voo - até que tudo
o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules - quando estendo a mão
por dentro da noite e te acordo,
no fogo dos meus olhos.






Al berto






 


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

de cada vez que o dia termina





































Envelheces tanto de cada vez que o dia termina e olhas para trás. Tens medo do começo do fim, das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos que foram belos - e não são mais. Envelheces muito quando o mundo contraria as pequenas coisas, sentes esse cansaço, nada a fazer.


Mesmo da poesia, que iluminava o tempo, vais colhendo apenas a amargura; os outros procuram nela sinais de um destino, datas curiosas, zangas, ventanias, armadilhas, mas tu sabes - e só tu sabes - que a tua vida é a tua vida e que o poema é empurrado por outro sopro, por um reflexo, um medo brutal, pela memória dos que morreram e levaram uma parte de ti, um pouco do que havia de comum entre ti e a vida, esse desperdício - às vezes -, esses momentos de glória em dias felizes.
Envelheces com os ossos que envelhecem. Envelheces sem querer.Por ti serias eternamente jovem, adolescente, e percorrerias as estradas das serras, as florestas, não para viveres sempre, mas para estares vivo mais um instante, porque o espectáculo é belo uma vez por outra. Envelheces pouco a pouco, porque as coisas não são o que foram nem são o que são.









Francisco José Viegas, Se me comovesse o amor



















quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

haverá talvez























Haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

Haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

Haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

Haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

Haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.





Vasco Gato



























quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

abismo























não se sai do abismo,
aprende-se a sua linguagem






vasco gato












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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

foste embora




















tenho razão em sentir saudades, tenho razão de te acusar.
houve um pacto implícito que rompeste. e sem te despedires
foste embora.
detonaste o pacto. detonaste a vida geral, a comum aquiescencia
de viver e explorar os outros rumos da obscuridade sem prazo, sem consulta sem provocação
até ao limite das folhas caidas na hora de cair.
antecipaste a hora.
teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada.
tenho razão para sentir saudades de ti, de nossa convivencia em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso,
voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança.
sim, tenho saudades, sim, acuso-te porque fizeste o não previsto
nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.








Carlos Drummond de Andrade










sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

se estivesses aqui






















Hoje, a saudade de ti: punhalada
de tinta muito branca,
o cheiro do que é novo, o cheiro da
doença a alastrar
Se estivesses aqui, dirias o meu nome
corrigias-me as coisas, e tudo estava
bem, mesmo que dentro de sentido
opaco
A tinta muito branca, o cheiro
que é do novo, aqui deste café,
corrigem-me a memória:
o cozinhares tão mal, a desarrumação
em tantos cantos, os nomes que criavas
para chamares as coisas
outra coisa
E os pedidos depois,
súplicas do silencio e do não choro,
tenacidades de viver igual,
e não ceder tanto – e não ceder
Hoje, em tão grande saudade,
minha amiga,
nem sei o que me resta:
Sonhar com o telefone a tocar,
e a voz,
ou eu a corrigir-me o hábito
do número –















Ana Luísa Amaral








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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ferida














 









E a tua ferida, onde está?

Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?

Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.

Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.

Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.

O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.




jean genet





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sábado, 8 de janeiro de 2011

a noite é um poema que conheço de cor














 


Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.







Maria do Rosário Pedreira




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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Este silêncio de já não termos palavras





















Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.

Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.

Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).

Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.

Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.





Helder Moura Pereira