sábado, 21 de maio de 2011

Ainda espero o amor

























Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído 
espera a sala vazia 



primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa 



não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores 



e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro 
que grita abraçado à minha canção





José Tolentino Mendonça









sexta-feira, 20 de maio de 2011

vem

















assim, hoje ao acordar fiquei aterrado ao ver que de noite me rolara para o meio da cama. deitei-me como sempre do meu lado, para deixar livre o teu no caso de resolveres voltar e te deitares nele. mas o sono levou-me para o sítio que é o bom e fica à minha esquerda. porque é que eu me passei para o meio da cama? e só acho uma como resposta o teres morrido para sempre. e fiquei horrorizado da minha libertação. não vás ainda. volta de novo. vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à espera. vem de noite sem eu dar conta e acordar contigo ainda no teu sono e tocar-te e seres tu.









Vergílio Ferreira

















quinta-feira, 19 de maio de 2011

é o medo de termos perdido sem querer a nossa vez





















É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar 

e entram clandestinas no poema. 
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera 



e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva 
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer 
a nossa vez.





Rui Pires Cabral












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A pele ia imitando o céu como podia

































A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.






Luís Miguel Nava











quarta-feira, 18 de maio de 2011

depois de ti o dilúvio

























Depois de ti
o dilúvio: esgotaram-se as imagens
e não posso mudar o que diziam:


há um esvaziamento, uma degradação,
que em pouco tempo tornam
o real absoluto no real possível:


e nunca mais hei-de sentir o mundo
tão alto como os versos e não o contrário,
e nunca mais poderei dizer a ninguém:


os teus olhos são tão belos como os teus olhos







Pedro Mexia




















terça-feira, 17 de maio de 2011

fazer com que vente mais e mais lá fora































não estou certo de nada. gostava, contudo,
de acreditar que existes, para te esperar sem
angústia, talvez pôr a música mais baixo, ouvir
os vizinhos a conversar, preparar coisas para te
dizer, ler um livro, vestir-me. gostava de ter
por ti um amor convencional, sem ter de o
imaginar. com um jantar pelo meio, um passeio
no mais popular do parque, a ver cisnes e a
fugir dos cavalos. mas não estou certo de nada, e
mais fácil é fechar as portadas, escolher um cobertor
quente e fazer com que vente mais e mais lá fora






valter hugo mãe


















segunda-feira, 16 de maio de 2011

quando te beijo






























quando te beijo
é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós.







vasco gato







domingo, 15 de maio de 2011

Podes dizer a toda a gente que um dia te amei





































Podes dizer ao mundo inteir
que estas letras são tuas.

assim como os desenhos que fiz,

os espaços que deixei.
Podes dizer a toda a gente que um dia
te amei e que foste tu quem me fez poeta.
Podes nadar em orgulho ao saber
que todos os copos que bebi foram por ti.
Que os cigarros que fumei ansiosa e
apressadamente foram pela saudade
do teu corpo.



Quando falarem de raios e relâmpagos,
de trovões e de tufões, vais poder

dizer que fui eu quem fez a China,
quem ergueu muralhas e deitou as
lágrimas de sangue.
Quando te perguntarem se um dia me
conheceste, diz que sim.



Responde um afirmativo de poder e de vontade.
Podes deixar o medo do conhecimento

alheio, agora que te sou realmente alheia.
Quando um dia o mundo se
desfizer verdadeiramente em estações trocadas
o Verão pelo Outono ou o Inverno pela
Primavera - aí podes descansar.
Podes contar à galáxia e aos seus
sobreviventes que, meu eterno desconhecido,
um dia me fizeste rainha.
...







José Eduardo Agualusa 












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sábado, 14 de maio de 2011

Não sei para que lado da noite me hei-de virar






































Não sei para que lado da noite me hei-de virar

onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.












Carlos Alberto Machado












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[...só não fumo...]




































quarta-feira, 11 de maio de 2011

de súbito






































E de súbito desaba o silêncio.

É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.







eugénio de andrade








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