quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ficarei só com o meu dilúvio.























Que os teus dedos me perdoem as palavras.
Que os teus olhos me perdoem o silêncio.
A fuga não é um acto premeditado.
No mergulho não existe oxigénio suficiente.
Unicamente uma desordem de músculos
que sustentam a ansiedade.
Ficarei só com o meu dilúvio.




in «Vem Adormecer o Dia» de «Francisco»












A kiss could've killed me

If it were not for the rain
A kiss could've killed me
Baby if it were not for the rain

And I had a feeling it was coming on
I felt it coming
For so long.
If I'm to be the fool
Then so it be.

This fool can die now
With a heart that's soaked
How
How had it it coming
For so long.

And darling take my hand
And lead me through the door
Let's kidnap each other
And start singing our song

My heart is charged now
Oh, it's dancing in my chest
And I fly when I walk now
From the spell in that kiss.

Cause I...

It could've
It could've killed me 
If not for the rain.

Oh darling let me dream
Cause somewhere inside me
I have been waiting
So patiently
For you.

So don't you cry.
Don't break my dream. 

Let the rain exalt us
As the night draws in.
Winds howl around us
As we begin.
What a way to start a fire
Broken with the break of day

A kiss could have killed me
If it were not for rain.

I have a feeling it's coming on.
I felt it coming on
for so long.

And it could've
It could've killed me. 
If it were not for the rain.





















terça-feira, 23 de agosto de 2011

«Não te esqueças de mim.»
























Se eu como ele, o meu amor
tão anterior assim ao próprio amor,
o cajado e a pele por simbólica mão,
e o perfume que em mim,
então,

talvez eu te fizesse
sentir sem que o soubesse,
ao certo,
o chamamento à noite, falar
muito de noite e nela adormecer.
Longuíssima e final. Mas nova sempre.
Reencarnando os tempos e as datas.

De memórias tão curtas. E do fim
mais final do esquecimento.
Ter encontrado há pouco coisa dada
há quantos anos? Trinta?
«Não te esqueças de mim.»





ana luísa amaral























segunda-feira, 22 de agosto de 2011

sem aviso


















Acordo com o teu nome nos 
meus lábios — amargo beijo 


esse que o tempo dá sem 
aviso a quem não esquece. 









Maria do Rosário Pedreira 












domingo, 21 de agosto de 2011

chegaste



















chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia
era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço







Pedro Sena-Lino


















sexta-feira, 19 de agosto de 2011

...se é verdade...






















Se for possível, manda-me dizer:

- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.




Hilda Hilst








imagem


















Amo os teus defeitos, e tantos eram




















Amo os teus defeitos, e tantos 
eram, as tuas faltas para comigo 
e as minhas; essa ênfase 
de rechaçar por timidez; solidão 
de fazer trepadeiras, agasalhos 
para velhos, depois para netos; 
indulgência de plantar e ver 
o crescimento da oliveira do paraíso, 
carregada de flores persistentemente 
caducas; essa autoridade, irremediável 
desafio; e a astúcia 
de termos ambos quase a mesma cara. 







António Osório 











quinta-feira, 18 de agosto de 2011

...se





















...se lhes gritasse
"o amor entranha-se na mais pequena porção do espaço"
saberiam que falo do meu corpo?...







Rosa Alice Branco






















Como posso eu amar-te
























Como posso eu amar-te, se nem sei
como à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste





António Franco Alexandre 



















segunda-feira, 15 de agosto de 2011

mulheres




















As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 

As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 

Transformam-se em escadas 
Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 




daniel faria




















domingo, 14 de agosto de 2011

Tu já não vens



















São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão





Maria do Rosário Pedreira











terça-feira, 9 de agosto de 2011

a contínua oração diária


























há palavras que te escrevo dispostas a suportar o peso da distância. são impulsos, quase sempre impulsos. quase sempre duas mãos a indagar o silêncio, a perguntar

à vida como se exercita o amor.
crio rumores que te chegam como um fio, um sopro
atrás do ouvido
onde te suspiro nomes, paisagens reunidas em livros de horas, onde te sopro orações
- a abóbada celeste, o teu coração.
há palavras que te escrevo que existem como um traço contínuo. como se o sentimento fosse demasiado vasto para invocar o silêncio, demasiado insistente para não responder à vida de volta.
invento as certezas do nosso amor, hoje digo-te uma certeza, amanhã outra e à hora de adormecer confesso-me
- hei de inventar a vida de volta
fazer da certeza um hábito. das palavras que te escrevo a contínua oração diária.





André Tomé





















segunda-feira, 8 de agosto de 2011

...gosto...




















Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.

Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?...)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairrosque passa fomeca
mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...

Saber viver é vender a alma ao diabo








Alexandre O'Neill





























senão pensar
























Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.






Alberto Caeiro















domingo, 7 de agosto de 2011

se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela





















todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro. curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.
desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.








al berto