sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

assim

















Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.


O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.


Chegou ao fim o dia,
encontro‐me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.


São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,


de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.





Miguel Pires Cabral






quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Diz-me por favor onde não estás














Diz-me por favor onde não estás
em qual lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.






Jorge Luis Borges




















segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Estou com a idade pousada nas mãos















Estou com a idade pousada nas mãos.
Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.


Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.


Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?











Vasco Gato









quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

se ao menos esta dor servisse












se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos
se ao menos esta dor visse
se ela saltasse fora da garganta
como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir saliva fora
sujar a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre e tem o direito de não sofrer
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos essa dor sangrasse... 




Renata Palottini











terça-feira, 29 de novembro de 2011

das paixões só conheci as mais pequenas






















das paixões só conheci as mais pequenas

aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorecer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.













Francisco José Viegas








sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pedem tanto a quem ama

















Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.





herberto helder









quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti



















Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.







rui costa










terça-feira, 22 de novembro de 2011

Não chegaste















Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.







antónio lobo antunes







segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dormes na minha insónia






























Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria.
És uma faca cravada na minha
vida secreta.










herberto helder










domingo, 20 de novembro de 2011

onde era possível inventar outra infância






















foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos


estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição


os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida


e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração









Al Berto



















quinta-feira, 17 de novembro de 2011

amei-te desde o princípio do tempo













Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós, a acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez, todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento. Todas as raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor fora do tempo e do espaço, como se só na tua pele a minha fosse lume. Quando é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar, para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viciados num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida. Respiração boca a boca, ar incandescente. Como se fosse inesgotável e nos invadisse a boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso infinito. Foi há sete anos, meu amor.









Fernando Pinto Amaral
















Levarei manhãs e madrugadas















Das manhãs

Apenas levarei a luz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua vez

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs e madrugadas







Daniel Faria










quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Porque é de ti que me vem o fogo





















Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu sinal de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor.





Herberto Helder















domingo, 13 de novembro de 2011

amanhã















Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…

Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro.





Álvaro de Campos










quinta-feira, 10 de novembro de 2011

viajamos para dentro um do outro
















abraço o teu rosto transparente com as duas mãos que
tenho, coração ferida. és de água e dos olhos escorres-me
como eu. de olhos abertos, marítimos de luz.

oiço a dor no fundo dos teus gestos. um sereno rio
quente
viajamos para dentro um do outro, para onde não
queremos ser nus, e mergulhamos no tempo cortado.
abraço o teu rosto quando tinhas oitos anos e muitos
Invernos crucificados no segredo, as paisagens rasgadas, a
fonte da vida gelada, e viajamos dentro das nossas mãos.
penetramos o silêncio um do outro. nus, magoados de
morte, na solidão primeira.

o teu rosto, disforme de sombras, e eu misturando o
meu rosto nele,
fazendo o meu rosto no teu rosto, sulco a sulco. corre a
água vermelha nos olhos abertos, marítimos de luz.

deixa-me porque sou eu a morrer

e as mãos tocam o silêncio gritante a ferida-tudo, a
solidão do corte.
recebe o meu corpo, quero apenas a tua morte inteira

beijo os teus desertos de sangue um a um, a imagem da
pedra feita vida jorrando, vermelha, tu és o meu espaço e o
meu tempo.

eu sou a ferida e tu és o deserto

estou de olhos abertos pelo sono dos dias fora, pelas
manhãs dentro, pelo golpe vivo.

crucificados um no outro, rebentando fontes por onde
morríamos.














Pedro Sena-Lino