sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Quando eu partir





















Quando eu partir, quando eu partir de novo,
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisálida prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre lhe abrisse
As janelas da vida...
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão-de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão-de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levar para sempre.
Mas ali
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre








Ruy Cinatti

























sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

as palavras dormem


























Amiúde no vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, esquece-se o rosto, retorna-se ao eu, os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo. E apenas as pequenas ilusões - um café, o cigarro, a limonada - imitam dois corações unidos...





Raul de Carvalho




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domingo, 22 de janeiro de 2012

já não estás só



















Tocas um corpo, sentes-Ihe o repetido tremor
sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue.
Observas-Ihe o lânguido amolecimento,
as suas sombras corporais, o seu desvelado esplendor.
Não há palavras. Tocas um corpo; um mundo
enche agora as tuas mãos empurra o seu destino.
Estira-se o tempo nos pulmões
silva como um chicote rente aos lábios.
As horas, o instante, detêm-se,
extrais aí a tua pequena parcela de eternidade.
Antes foram os nomes e as datas.
a história tão clara e lúcida de dois rostos distantes.
Depois aquilo a que chamas amor,
talvez se transforme em promessa arrancada,
muro erguido que pretende encerrar
aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.
Não importa, agora nada importa.
Tocas um corpo, nele te fundes,
apalpas a vida, real, comum.

Já não estás só.




Juan Luis Panero 








sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

...quando as perdemos...


































Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.




rui costa














sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

porque te amo


















Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.




Joaquim Pessoa










domingo, 1 de janeiro de 2012

troquei o céu azul pelos teus olhos




















Nomeei-te no meio dos meus sonhos 
chamei por ti na minha solidão 
troquei o céu azul pelos teus olhos 
e o meu sólido chão pelo teu amor.







Ruy Belo








quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Depois esvaziou-se com cuidado













Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.
No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.





Filipa Leal
















domingo, 25 de dezembro de 2011

A thousand kisses deep














You came to me this morning
And you handled me like meat
Youd have to be a man to know
How good that feels, how sweet

My mirrored twin, my next of kin
Id know you in my sleep
And who but you would take me in
A thousand kisses deep

I loved you when you opened
Like a lily to the heat
You see Im just another snowman
Standing in the rain and sleet

Who loved you with his frozen love
His secondhand physique
With all he is and all he was
A thousand kisses deep

I know you had to lie to me
I know you had to cheat
To pose all hot and high
Behind the veils of sheer deceit

Our perfect porn aristocrat
So elegant and cheap
Im old but Im still into that
A thousand kisses deep

Im good at love, Im good at hate
Its in between I freeze
Been working out but its too late
(Its been too late for years)

But you look good, you really do
They love you on the street
If you were here Id kneel for you
A thousand kisses deep

The autumn moved across your skin
Got something in my eye
A light that doesnt need to live
And doesnt need to die

A riddle in the book of love
Obscure and obsolete
And witnessed here in time and blood
A thousand kisses deep

But Im still working with the wine
Still dancing cheek to cheek
The band is playing Auld Lang Syne
But the heart will not retreat

I ran with Diz, I sang with Ray
I never had their sweet
But once or twice they let me play
A thousand kisses deep

I loved you when you opened
Like a lily to the heat
You see Im just another snowman
Standing in the rain and sleet

Who loved you with his frozen love
His secondhand physique
With all he is and all he was
A thousand kisses deep

But you dont need to hear me now
And every word I speak
It counts against me anyhow
A thousand kisses deep













Não esqueças sobretudo de olhar devagar


















Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.


Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras. 


Não esqueças sobretudo de olhar devagar. 

















Vasco Gato
















sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

assim

















Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.


O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.


Chegou ao fim o dia,
encontro‐me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.


São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,


de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.





Miguel Pires Cabral






quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Diz-me por favor onde não estás














Diz-me por favor onde não estás
em qual lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.






Jorge Luis Borges




















segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Estou com a idade pousada nas mãos















Estou com a idade pousada nas mãos.
Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.


Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.


Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?











Vasco Gato









quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

se ao menos esta dor servisse












se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos
se ao menos esta dor visse
se ela saltasse fora da garganta
como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir saliva fora
sujar a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre e tem o direito de não sofrer
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos essa dor sangrasse... 




Renata Palottini











terça-feira, 29 de novembro de 2011

das paixões só conheci as mais pequenas






















das paixões só conheci as mais pequenas

aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorecer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.













Francisco José Viegas








sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pedem tanto a quem ama

















Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.





herberto helder









quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti



















Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.







rui costa










terça-feira, 22 de novembro de 2011

Não chegaste















Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.







antónio lobo antunes