domingo, 7 de agosto de 2011

se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela





















todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro. curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.
desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.








al berto
























sexta-feira, 5 de agosto de 2011

lavava os olhos com shampoo e chorava


























Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó 
lavava os olhos com shampoo 
e chorava 
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos 
que faziam arder os olhos 
no more tears disse Johnson & Johnson 
as mães são filhas das filhas 
e as filhas são mães das mães 
uma mãe lava a cabeça da outra 
e todas têm cabelos de crianças loiras 
para chorar não podemos usar mais shampoo 
e eu gostava de chorar a fio 
e chorava 
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço 
sem uma lágrima 
fechada à chave na casa de banho 
da casa da minha avó 
onde além de mim só estava eu 
também me fechava no guarda-vestidos 
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro 
nunca ninguém viu um vestido a chorar 



Adília Lopes













quarta-feira, 3 de agosto de 2011

não procuro um amor entre os cardos





















não procuro um amor entre os cardos,
se é entre os cardos que me vês, procura 
pensar que um amor não se perde por ali 
nem por ali se deve encontrar. se estou 
entre os cardos, meu amor, é para te esquecer 
e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti 
que procuro apenas dores, apenas fardos, 
para lentamente matar o meu coração. e 
se me vires cair, se entretanto me vires no chão, 
não me apanhes, não me ajudes, pensa que 
já ninguém passeia nos cardos e que o 
amor, para castigo dos que morrem, recomeça 
num outro lugar, seguramente à tua espera. 
depois sorri mesmo que te seja difícil, se por 
mais difícil que seja para mim ver-te sorrir 
é entre os cardos que devo partir, quando 
fugazmente te souber passando, tão parecida 
com ires buscar a felicidade sem mim e eu 
só mais uns segundos, já meus anjos preparados. 





valter hugo mãe














domingo, 31 de julho de 2011

nunca descobrimos o que fazer com o amor






















Sabemos vender sorrisos e mãos
corpos vazios ou completos às sedes redondas e ferozes
sabemos vender a língua que nos adeja pela pele
sabemos vender tudo que por dentro se move e até
o que se gastou entre segundos de um tempo infinito
mas nunca descobrimos o que fazer com o amor
que a brasa do anos de embalo não consome.



Sofia Loureiro dos Santos 




































terça-feira, 26 de julho de 2011

poderei também eu partir





























Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.









Maria do Rosário Pedreira






















quinta-feira, 21 de julho de 2011

é tão fácil























é tão fácil amar lugares
que não existem


recordar praças e pontes e travessas
onde nunca morremos por ninguém


quartos na penumbra de estores corridos
sobre a sonolência dos gatos em agosto
onde nunca chegámos atrasados


o tampo de mármore de mesas de café
onde as nossas mãos não se esconderam
por alguém ter entrado antes de nós


é tão fácil lembrar nomes e rostos e destinos
e colocá-los em nossos ombros e festejar com eles
as luminosas horas em que a vida
nos rodeava a cintura como um amante possessivo
e nós repetíamos o nome das cidades
onde nada disso tinha acontecido


é tão fácil assim
dizer adeus
sabendo que deus nem sequer assiste
à despedida






Alice Vieira








domingo, 17 de julho de 2011

Eu tive a dita de me terem roubado tudo






















Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce á cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.










Almada Negreiros










imagem




















domingo, 10 de julho de 2011

Quiero que sepas una cosa






















Si tu me olvidas

Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,

todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.




Pablo Neruda




















terça-feira, 5 de julho de 2011

um simples bater de chuva nos vidros


































As coisas mais simples, ouço-as no intervalo
do vento, quando um simples bater de chuva nos
vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo
se sobrepõe ao das palavras. Por vezes, é uma 
voz cansada, que repete incansavelmente
o que a noite ensina a quem a vive; de outras
vezes, corre, apressada, atropelando sentidos
e frases como se quisesse chegar ao fim,
mais depressa do que a madrugada. São coisas simples
como a areia que se apanha, e escorre por
entre os dedos enquanto os olhos procuram
uma linha nítida no horizonte; ou são as
coisas que subitamente lembramos, quando
o sol emerge num breve rasgão de nuvem.
Estas são as coisas que passam, quando o vento
fica; e são elas que tentamos lembrar, como
se as tivéssemos ouvido, e o ruído da chuva nos
vidros não tivesse apagado a sua voz.





Nuno Júdice
















é um corpo



















estão aqui 37 graus. é um corpo. e ninguém se aproxima. senão para recuar. devorar. ou ficar.





vasco gato
















domingo, 3 de julho de 2011

Que tristeza tão inútil






























Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Pela noite adiante, 
com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.

Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.






Eugénio de Andrade