segunda-feira, 15 de agosto de 2011

mulheres




















As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 

As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 

Transformam-se em escadas 
Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 




daniel faria




















domingo, 14 de agosto de 2011

Tu já não vens



















São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão





Maria do Rosário Pedreira











terça-feira, 9 de agosto de 2011

a contínua oração diária


























há palavras que te escrevo dispostas a suportar o peso da distância. são impulsos, quase sempre impulsos. quase sempre duas mãos a indagar o silêncio, a perguntar

à vida como se exercita o amor.
crio rumores que te chegam como um fio, um sopro
atrás do ouvido
onde te suspiro nomes, paisagens reunidas em livros de horas, onde te sopro orações
- a abóbada celeste, o teu coração.
há palavras que te escrevo que existem como um traço contínuo. como se o sentimento fosse demasiado vasto para invocar o silêncio, demasiado insistente para não responder à vida de volta.
invento as certezas do nosso amor, hoje digo-te uma certeza, amanhã outra e à hora de adormecer confesso-me
- hei de inventar a vida de volta
fazer da certeza um hábito. das palavras que te escrevo a contínua oração diária.





André Tomé





















segunda-feira, 8 de agosto de 2011

...gosto...




















Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.

Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?...)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairrosque passa fomeca
mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...

Saber viver é vender a alma ao diabo








Alexandre O'Neill





























senão pensar
























Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.






Alberto Caeiro















domingo, 7 de agosto de 2011

se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela





















todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro. curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.
desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.








al berto
























sexta-feira, 5 de agosto de 2011

lavava os olhos com shampoo e chorava


























Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó 
lavava os olhos com shampoo 
e chorava 
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos 
que faziam arder os olhos 
no more tears disse Johnson & Johnson 
as mães são filhas das filhas 
e as filhas são mães das mães 
uma mãe lava a cabeça da outra 
e todas têm cabelos de crianças loiras 
para chorar não podemos usar mais shampoo 
e eu gostava de chorar a fio 
e chorava 
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço 
sem uma lágrima 
fechada à chave na casa de banho 
da casa da minha avó 
onde além de mim só estava eu 
também me fechava no guarda-vestidos 
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro 
nunca ninguém viu um vestido a chorar 



Adília Lopes













quarta-feira, 3 de agosto de 2011

não procuro um amor entre os cardos





















não procuro um amor entre os cardos,
se é entre os cardos que me vês, procura 
pensar que um amor não se perde por ali 
nem por ali se deve encontrar. se estou 
entre os cardos, meu amor, é para te esquecer 
e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti 
que procuro apenas dores, apenas fardos, 
para lentamente matar o meu coração. e 
se me vires cair, se entretanto me vires no chão, 
não me apanhes, não me ajudes, pensa que 
já ninguém passeia nos cardos e que o 
amor, para castigo dos que morrem, recomeça 
num outro lugar, seguramente à tua espera. 
depois sorri mesmo que te seja difícil, se por 
mais difícil que seja para mim ver-te sorrir 
é entre os cardos que devo partir, quando 
fugazmente te souber passando, tão parecida 
com ires buscar a felicidade sem mim e eu 
só mais uns segundos, já meus anjos preparados. 





valter hugo mãe














domingo, 31 de julho de 2011

nunca descobrimos o que fazer com o amor






















Sabemos vender sorrisos e mãos
corpos vazios ou completos às sedes redondas e ferozes
sabemos vender a língua que nos adeja pela pele
sabemos vender tudo que por dentro se move e até
o que se gastou entre segundos de um tempo infinito
mas nunca descobrimos o que fazer com o amor
que a brasa do anos de embalo não consome.



Sofia Loureiro dos Santos 




































terça-feira, 26 de julho de 2011

poderei também eu partir





























Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.









Maria do Rosário Pedreira






















quinta-feira, 21 de julho de 2011

é tão fácil























é tão fácil amar lugares
que não existem


recordar praças e pontes e travessas
onde nunca morremos por ninguém


quartos na penumbra de estores corridos
sobre a sonolência dos gatos em agosto
onde nunca chegámos atrasados


o tampo de mármore de mesas de café
onde as nossas mãos não se esconderam
por alguém ter entrado antes de nós


é tão fácil lembrar nomes e rostos e destinos
e colocá-los em nossos ombros e festejar com eles
as luminosas horas em que a vida
nos rodeava a cintura como um amante possessivo
e nós repetíamos o nome das cidades
onde nada disso tinha acontecido


é tão fácil assim
dizer adeus
sabendo que deus nem sequer assiste
à despedida






Alice Vieira








domingo, 17 de julho de 2011

Eu tive a dita de me terem roubado tudo






















Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce á cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.










Almada Negreiros










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