terça-feira, 22 de novembro de 2011

Não chegaste















Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.







antónio lobo antunes







segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dormes na minha insónia






























Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria.
És uma faca cravada na minha
vida secreta.










herberto helder










domingo, 20 de novembro de 2011

onde era possível inventar outra infância






















foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos


estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição


os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida


e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração









Al Berto



















quinta-feira, 17 de novembro de 2011

amei-te desde o princípio do tempo













Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós, a acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez, todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento. Todas as raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor fora do tempo e do espaço, como se só na tua pele a minha fosse lume. Quando é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar, para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viciados num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida. Respiração boca a boca, ar incandescente. Como se fosse inesgotável e nos invadisse a boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso infinito. Foi há sete anos, meu amor.









Fernando Pinto Amaral
















Levarei manhãs e madrugadas















Das manhãs

Apenas levarei a luz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua vez

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs e madrugadas







Daniel Faria










quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Porque é de ti que me vem o fogo





















Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu sinal de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor.





Herberto Helder















domingo, 13 de novembro de 2011

amanhã















Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…

Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro.





Álvaro de Campos










quinta-feira, 10 de novembro de 2011

viajamos para dentro um do outro
















abraço o teu rosto transparente com as duas mãos que
tenho, coração ferida. és de água e dos olhos escorres-me
como eu. de olhos abertos, marítimos de luz.

oiço a dor no fundo dos teus gestos. um sereno rio
quente
viajamos para dentro um do outro, para onde não
queremos ser nus, e mergulhamos no tempo cortado.
abraço o teu rosto quando tinhas oitos anos e muitos
Invernos crucificados no segredo, as paisagens rasgadas, a
fonte da vida gelada, e viajamos dentro das nossas mãos.
penetramos o silêncio um do outro. nus, magoados de
morte, na solidão primeira.

o teu rosto, disforme de sombras, e eu misturando o
meu rosto nele,
fazendo o meu rosto no teu rosto, sulco a sulco. corre a
água vermelha nos olhos abertos, marítimos de luz.

deixa-me porque sou eu a morrer

e as mãos tocam o silêncio gritante a ferida-tudo, a
solidão do corte.
recebe o meu corpo, quero apenas a tua morte inteira

beijo os teus desertos de sangue um a um, a imagem da
pedra feita vida jorrando, vermelha, tu és o meu espaço e o
meu tempo.

eu sou a ferida e tu és o deserto

estou de olhos abertos pelo sono dos dias fora, pelas
manhãs dentro, pelo golpe vivo.

crucificados um no outro, rebentando fontes por onde
morríamos.














Pedro Sena-Lino
























segunda-feira, 7 de novembro de 2011

diz-me o teu nome

























Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.





Maria do Rosário Pedreira








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domingo, 6 de novembro de 2011

estou a fazer-te luto
















as pessoas morrem nunca partem de nós, eu separei-te
de mim, cortei-te-me. em cinemas imaginários filmados por
mãos iluminadas usei teu corpo. coloquei o deserto do teu
coração rente à minha boca. lavaram-me o desespero as
lágrimas que choravas no escuro. parti-te.
estou a fazer-te luto. desejei-te tanto. discuti-te tanto
contigo. agora percebo que te atirei demais contra tantos
poemas.
agora encontramo-nos. eu tenho de colar-te os restos
para conseguir ver-te para além do que trago molhado nos
olhos, acabou o passeio no meu jardim interior, pleno de estatuas
quebradas, as noites acabo sempre assim, abraçado ao rosto
restos da pedra, agradecendo-lhe as imagens.



Pedro Sena-Lino


















sexta-feira, 4 de novembro de 2011

quero dizer-te:




















quero dizer-te: não morras.

Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.






antónio franco alexandre










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sábado, 29 de outubro de 2011

Quando aqui não estás o que nos rodeou põe-se a morrer
























Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador





al berto







Um nome arde tanto de repente













Um nome arde tanto
de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil


a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza







josé tolentino-mendonça







quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Depois irei ali além das pontes















Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
Mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.




antónio franco alexandre