quarta-feira, 20 de março de 2013

antes de ti


















Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 
todas as coisas que na vida eu emprenhei. 
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 
como as tais coisas nas quais nunca pensei. 

Demais foram as sombras. Mais e mais. 
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 
do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 
de onde parti sem saber por que embarquei. 

Amei demais. Sempre demais. E o que dei 
está espalhado pelos sítios onde vais 
e pelos anos longos, longos, que passei 

à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 
E os milhares de versos que rasguei 
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais. 




Joaquim Pessoa









sexta-feira, 8 de março de 2013

Este abandono custa























Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.





Helder Moura Pereira

















sexta-feira, 1 de março de 2013

como?















de ti
receberia o chão que me faltava

e dava-te,
punha-te janelas no coração

como pudemos ter falhado?





gil t sousa











quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A minha maneira de amar-te é simples:














A minha maneira de amar-te é simples:
aperto-te a mim
como se tivesse um pouco de justiça no coração
e ta pudesse dar com o corpo

Quando te revolvo os cabelos
algo de lindo nasce das minhas mãos

E não sei quase mais nada. Aspiro apenas
a estar contigo em paz e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes me pesa também no coração.







Antonio Gamoneda












domingo, 24 de fevereiro de 2013

Amo-te tanto, António

















Para sempre em azul

1. Já disse que estou cansada, farta desse argumento estúpido. Que me interessa a tua idade, os teus filhos, os teus oito netos e uma mulher que desde sempre te arrumou as camisas no lugar certo e te acompanhou na morte das tias, no casamento da Rita, no baptizado do João, te comprou a gravata a dar com o blazer. Estou-me nas tintas para esse caixote de fotografias, a aliança dobrada, o carro a meias, os juros acumulados na conta da reforma, o primeiro namoro, o único namoro, as noites de natal e os presentes sugeridos. Quero lá saber das amarras de trinta anos de um casamento igual ao de trinta milhões de outros, ou por acaso a tua magnífica ingenuidade te faz acreditar que és o único homem a quem acontece o fascínio da última viagem?

2. Já pensaste que amanhã nem sequer resistiremos ao pó, que outros irão em romarias de alguma disponibilidade devidamente apontada, depositar um magro ramo de flores numa qualquer cidade de mortos, e que nem na memória dos filhos ultrapassa-mos a linha da dor que o tempo amortece?

3. Já pensaste que ninguém recupera o brilho, o fulgor da pele, o fio do prazer, a sede do gesto, a alegria do coração a pular, a adolescência do amor?

4. Eu sei, já me disseste vezes sem conta que és o filho pródigo do teu medo, o operário forçado da tua solidão partilhada, o elo inquebrável de uma imensa cadeia dourada e alcatifada pelos compromissos sociais, o patriarca frágil de um sistema de reformas velhas de mil anos, o homem com um passado ligado à relva do seu pequeno jardim.


5. Mas também sei que me amas, que te revês na minha fuga ao tempo, que cresces no meu sonho onde o lugar do amor é só planícies e montanhas onde nenhuma casa nos espera, nenhum móvel para mudar, todos os silêncios podem ser sedução ou ponto final.

6. E depois quem te pode garantir que na manhã seguinte ainda estarei ao teu lado para te dar o cigarro e dizer que são horas da assembleia-geral, rir do teu pijama às riscas, irritar-me com a tua obsessão pela pasta de dentes meticulosamente espremida, dizer-te não te esqueças de telefonar à Zeca, e assistir ao teu nó de gravata bem comportado? E depois como terás a certeza da minha felicidade, eu tão jovem, tão acessível ao desejo, tão livre para escolher o restaurante, o perfume, o quadro, o sexo?

7. Confessa António que te assusta a impotência, o desejo encolhido ao canto das virilhas, escondido entre duas pregas rugosas, amor- talhado entre músculos flácidos, sem aquele arrojo juvenil de que tanto te orgulhaste aos vinte, trinta anos de pujança sexual.

8. Confessa que tens medo do espelho, que fazes a barba a correr para não te defrontares com as rugas, o cansaço, os lábios secos, as maçãs do rosto descaídas, os dentes postiços, o cabeço completamente branco, o tempo a rir-se de ti e com ele o olhar cínico e acusador da mulher que abandonaste por uma miragem.

9. Eu sei que já viste este filme e na altura até o achaste credível e elogiaste o realizador, o argumento, a representação, e na tua voz clara e pausada fizeste uma sinopse ao teu mais íntimo amigo, e ficaram os dois bebendo descafeínados, trocando opiniões muito analíticas, muito ilustradas por comentários tipo, pois é, a gente perde sempre o último combóio ou por medo ou subserviência ao que não é importante mas é funcional.

10. E foram cada um para as suas moradias voltadas para o mar da serenidade conformada, para a conta a prazo da velhice a dois, cinco, ao cão, à bicicleta no canto da garagem.

11. Eu sei que dois mais dois são quatro, que o mundo já era antes de mim, que a vida tem de ser gerida pelos polícias da normalidade, que tudo tem um preço, que o tempo tudo apaga, que há regras que valem e fazem o ouro, mas não quero saber. Aliás, ninguém quer saber de ninguém. É tudo mentira, António, tudo, nada resiste à claridade. Todos os contornos se desfazem contra a faca do irremediável e nenhum gume corta mais fundo que a vontade de ser, o terrível desejo de viver neste tempo enquanto os olhos vêem, o coração bate, a pele exige.

12. O resto, é o que virá depois de mim, depois de nós, depois das sombras se coserem às escarpas da memória, e essa é tão breve que nem com sílabas de aço se passa à eternidade.

13. Por isso insisto na autonomia de realizar o meu filme sem filtros especiais nem montagens em estúdios sofisticados. Construí o meu palco sobre o rio e todos os dias desaguo no vertiginoso estuário da coragem, doa a quem der, o último barco a passar há-de ser o meu, nem que tenha todos os dias, todos os instantes de dobrar o cabo da angústia, porque sabes António, ao leme deste querer, mais do que eu manda o desejo de gritar, de acontecer.

14. Quero lá saber do porta-chaves ou da máquina de lavar que já não lava, ou do imposto profissional, ou das férias em Itália, o teu fato precisa de ir para a lavandaria? e isso é importante? Amanhã é outra lua, deixa-me ler este artigo sobre moda, vai chover? eu vou comprar um disco de Jazz. Sim, é tão bom passear na praia, perder o pé na areia, encontrá-lo cheio de cascas de búzios, mergulhar nua, correr contra o vento, chegar a casa e encontrar-te. És tão bonito assim, azul, azul até ao infinito. Amo-te.

15. E é verdade, António, todos os filmes são possíveis. Isso, vamos sair, vamos ao cinema ver Bergman, melhor, vamos fazer amor... estava só a ver se te irritava, sabes como eu gosto de te acicatar, afinal, estamos tão velhos e gastos meu amor.

16. Como foi bom envelhecer contigo... Aconchegar a noite na concha das tuas costas, beijar nos teus dedos a renda da ternura. 

Amo-te tanto, António. Fica comigo neste quadro.





Isabel Mendes Ferreira


















Nada me pertenceu

















Nada me pertenceu - nem o vestido indecente
que pedi emprestado para te oferecer os seios, nem
os seios, que eram já teus muito antes do vestido.

O sorriso que devassou brevemente o meu rosto não
me pertenceu; porque ninguém o viu antes de ti,
nem o espelho se convenceu a devolver-mo.

Todas as coisas que a casa guardou quando partiste não
me pertenceram; porque, ao tocar-lhe nos dias mais
cinzentos, sinto que é pelo calor dos teus dedos que ainda
gritam; e mesmo a cama onde só teu corpo era bem-vindo
nunca chegou a ser inteiramente minha, pois, de contrário,
encontraria nela o meu lugar, e não o teu vazio.

Tu não me pertenceste - e, se uma vez acreditei que
acontecias dentro do meu corpo, das outras vi-te abraçar a
solidão com tanto ardor que concluí ser a memória quem
te mantinha vivo. O meu coração, contudo, sempre

te pertenceu - e a mão desesperada que o procura não
sente bater longe do teu peito. E mesmo os poemas todos
que escrevi não me pertenceram, porque essa vida
que pulsava no papel levaste-a tu contigo na hora
em que te foste - e a que tenho agora é mais
branca e vazia do que a morte, não é vida nem nada

que eu queira alguma vez que me pertença.






Maria do Rosário Pedreira


















quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

estou preso nos meus sentidos sem poder sair












Talvez sejas
a breve recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.






Manuel António Pina














domingo, 17 de fevereiro de 2013

os teus caminhos estão em mim











persegue-me à toa. nunca
pares para pensar.

esquece as ruas. os teus
caminhos estão em
mim.

abre os olhos como o postigo
de um pequeno e delicado esconderijo, e
deixa o vento entrar.

recolhe o riso e fragrância terna
das flores na primavera. afasta
os lábios em pétalas vermelhas de
paixão. deixa-me roubar-te esse húmido pólen.

deixa que a sede se
sacie à tona dos teus olhos, onde
pretendo cegar.

desenlaço o corpo do teu e
demoro longo tempo a
perceber os meus contornos, assim
como a estátua demora a
esquecer a forma desfigurada
da pedra que lhe deu origem.

se te alheares, visito-te por
dentro de mim e juro
não acordar enquanto
não vieres pedir desculpa.

fico só, sabendo
que todos os objectos têm a
forma do teu corpo, e
todos os sons se reconduzem
à tua voz. não deambulo
pela casa – excessiva de ti – fujo-lhe
na ausência de movimento e
no desejo de ficar absolutamente
só. lembro-me de como não gostas
de me ver chorar.



valter hugo mãe






quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

esperar por ti é ter talvez esperança















esperar por ti não é esperar por ti
esperar por ti é ter talvez esperança
ou é esperar com minudenciosa paciência
e desenhar teu rosto em cada rosto que vejo surgir
na minha alvoroçada vizinhança dos teus passos
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas árvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo de que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te
ver-te é sentir pousar mais que um olhar
uma mão muito calma sobre a minha vida
ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo
que sempre existirei que não há mais ninguém
ver o teu rosto é mesmo mais do que nascer
empreender viagens começadas nesse rosto
donde podem sair inúmeros navios
ver o teu rosto é como tudo começar
corrida a minudenciosa prega do silêncio
silêncio alto como um cerro inesperado como um curro
aéreo como um cirro denso como um cerro
prosaico às vezes como a mecânica de um carro
Vejo-te e povoas só de folhas que depois desfolhas
os rasos descampados que te cercam por todos os lados
Caminho ao teu encontro
a juventude é como uma oportunidade
começa a ser outono a tarde é território para a luz
tem certas listas como um fato cinzento
toco-te apenas para ver se estás aí
um país se arredonda à tua volta
sinto todas as coisas no lugar
Quando te vais embora fico de repente ao abandono
sem ao menos a protecção de uns olhos de animal
da copa arredondada de uma árvore
Vais-te embora e deixa de haver árvores no mundo
e não tenho palavras e não tenho voz
não conheço ninguém nenhum ouvido
que se possa ajustar à forma do meu grito
E desço da liteira como quem desce da vida
como que me separo de mim mesmo
sinto-me inexplicável e na rua
para sempre irremediavelmente na rua


Ruy Belo























sábado, 2 de fevereiro de 2013

sentir que sobra uma porção de cama


















É tão triste acordar ao meio-dia
de um sábado que soa a vento e frio,
sentir que sobra uma porção de cama
(a cama se não estás é como um túmulo),
abrir os olhos ─ ou, melhor, que seja
a luz que vem abrir-mos ─ e saber
que tudo hoje será inútil, que
este dia nem um milagre o salva.

É triste levantar-se depois, sem jeito,
ir aos tropeções à casa de banho,
olhar-me, bocejar um par de vezes,
ver um homem sozinho no espelho,
um homem sozinho e que o sabe.

É triste que depois, contudo,
o meu corpo continue com o jogo,
e ponha a cafeteira, faça um sumo,
umas torradas e ponha tudo isso
numa mesa, que se sente, que coma
e beba e no mais negro do peito,
sem saber porquê, se lhe solte um pranto.

Torna-se então muito mais triste ainda
olhar pela janela, ver as nuvens
que passam, que ─ tal como a vida ─ passam
sem espaventos, mas que nos comovem,
apoiar-se, por fim, muito lentamente
às costas da cadeira e, isso mesmo,
deixar o olhar fixo e não ver nada.




juan miguel lópez











sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

o corpo, sem ti















É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.






Eugénio de Andrade















quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

E se tu não estiveres onde o poema está?














Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.




Ana Luísa Amaral





ultimamente as imagens têm sido quase todas daqui


















segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

tu
















Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.




Nuno Judice







sábado, 26 de janeiro de 2013

Por isso não me procures














Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.




Francisco José Viegas









sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada














Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.






Fernando Assis Pacheco









quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

afogadas de silêncio


















Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.



Amalia Bautista










domingo, 20 de janeiro de 2013

não partas












Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.


Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –


o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.







Maria do Rosário Pedreira