quarta-feira, 4 de setembro de 2013

doce e cruel é Setembro
















(...)
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é Setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.





José Agostinho Baptista














domingo, 1 de setembro de 2013

é um instantinho





















«Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato», Diziam-me isto, em criança, e eu adorava. Voltou-me hoje à ideia, passado tanto tempo. Tanto tempo, uma ova: era menino, limitei-me a piscar os olhos e fiquei como agora. Entende-se a maldade? Eu não entendo. Piscar os olhos é um instantinho, que raio de merda aconteceu? Mascararam-me com rugas, cabelos brancos, vontade de ir mais cedo para casa. Brincadeira de mau gosto, a idade. (...)»




antónio lobo antunes (01 de setembro de 1942)





imagem














conheço a tua boca apenas quando ri…





















Saber de ti…
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não fale!

– O que tu és não me interessa, crê.

Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
Mas para quê saber quem és
ou que destino te conduz?!…
Não sei a cor dos teus cabelos
conheço a tua boca apenas quando ri…

Não voltes mais!
Que a visão do teu sorriso
– sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!


Judith Teixeira













segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Eu estou no corpo errado



















Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas.
Isso incomodava toda a gente.
Por causa do barulho.
O coração batia tão alto!...
Ela tentava explicar: «É um coração de pássaro... Eu estou no corpo errado!... Daí o coração bater tão rápido... Eu sou um pássaro...»
(...)
Pouco a pouco as pessoas foram-se habituando ao barulho do coração…
Acabaram mesmo por esquecê-la.
Ninguém se apercebeu do que se passava.
E isso era bom para ela.
Também ela se habituava.
Começou mesmo a gostar do seu corpo
E sentia-se cada vez mais leve
Ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu.
E depois, um dia…
As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia.
Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim.





Regina Pessoa














sábado, 24 de agosto de 2013

algum dia ouviste morrer uma noite























tu chegavas de tão longe que eu não te podia tocar
como se viesses de um sonho ou de uma mentira
o teu corpo era cruel como o nevoeiro
e onde ardia o amor eu era apenas um corpo

algum dia ouviste morrer uma noite
uma água de mágoa tritura os pulsos
um ruído trespassado desabita o coração

esfinges ocupam o quarto
a lua permanece raios decepados
abraço o teu corpo onde me sobrevivo
e adormeço futuro contra a luz

do amor de tão antes onde te espero
vejo um fantasma abrir um corpo de voz
e sangrar sobre a noite esvaziado

ninguém se levanta dentro do seu próprio coração





Pedro Sena-Lino















quinta-feira, 22 de agosto de 2013

o importante












A calma é tão profunda
e abstracta que a sua fórmula não vem nos livros
e não há movimentos que a desenhem
o importante não tem tamanho para caber na televisão.






Gonçalo M. Tavares 



















sexta-feira, 16 de agosto de 2013

como se o tempo das palavras fosse o dos regressos


















Escreve-me muitas vezes
como os percursos ininterruptos das formigas
o ritmo dos girassóis devolvidos à condição de flor
e o reflexo das nuvens no lado interior dos rios
guardados nas minhas mãos

Escreve-me tantas vezes
quantos os nocturnos quase-vazios entre as estrelas
os quebrantos de mar aos pés prateados da lua
e as intuições anunciadas na respiração dos dedos dos
amantes

Nunca deixes de me escrever
como se o tempo das palavras fosse o dos regressos
confirmado na existência e docilidade das pedras

Nunca deixes de me sentir





Sandra Costa













terça-feira, 13 de agosto de 2013

também se morre de silêncio
















Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim morro-me de ausência
morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos;
pedacinhos de memória pendurados
morro-me também...da melancolia
quando tu, sem eu saber porquê,
nem te aproximas nem acenas
ah sim, também se morre de silêncio





Victor Oliveira Mateus









quinta-feira, 8 de agosto de 2013

poema muito breve e muito raso


















Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.





Ana Luísa Amaral
















terça-feira, 6 de agosto de 2013

eu preciso das minhas solidões























Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.



Ana Luísa Amaral 












segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Yo te enseñe a besar














Hay besos que pronuncian por sí solos

la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.

Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.

Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.

Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.

Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.

Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.

Judas besa a Jesús y deja impresa
en su rostro de Dios, la felonía,
mientras la Magdalena con sus besos
fortifica piadosa su agonía.

Desde entonces en los besos palpita
el amor, la traición y los dolores,
en las bodas humanas se parecen
a la brisa que juega con las flores.

Hay besos que producen desvaríos
de amorosa pasión ardiente y loca,
tú los conoces bien son besos míos
inventados por mí, para tu boca.

Besos de llama que en rastro impreso
llevan los surcos de un amor vedado,
besos de tempestad, salvajes besos
que solo nuestros labios han probado.

¿Te acuerdas del primero...? Indefinible;
cubrió tu faz de cárdenos sonrojos
y en los espasmos de emoción terrible,
llenaron sé de lágrimas tus ojos.

¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso
te vi celoso imaginando agravios,
te suspendí en mis brazos... vibró un beso,
y qué viste después...? Sangre en mis labios.

Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca.




Gabriela Mistral















sexta-feira, 2 de agosto de 2013

de um poema sublinhado


















Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala.
Talvez seja possível amar um homem por causa de um livro, de um poema de Stevenson, «my house, they say», dos olhos de uma mulher quando fala dele, da forma como o seu cão o espera.








Ana Teresa Pereira










quinta-feira, 1 de agosto de 2013

olha-me de novo














Se te pareço nocturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.





Hilda Hilst





















segunda-feira, 29 de julho de 2013

por um pequeno nada

















Eu ouso a paixão
não a recuso

Escuto os sentidos sem o medo por perto
troco a ternura da rosa
ponho a onda no deserto

A tudo o que é impossível
abro e rasgo o coração
Debaixo coloco a mão
para colher o incerto

Desembuço o amor
no calor da emboscada
infrinjo regras e impeço

Troco o sonho dos deuses
por um pequeno nada

Desobedeço ao preceito
e desarrumo a paixão
Teço e bordo o meu avesso
e desacerto a razão




Maria Teresa Horta














como quem pede um coração














Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.





Filipa Leal





















sábado, 27 de julho de 2013

dorme comigo











Castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo.
Dorme comigo. Agasalha-me as noites.
Imperfeito como ao amor convém
bebemos e falamos como se a vida fosse eterna.
Agora vou soletreando becos sem saída.
Não te importes amor.
Não te importes se estivermos ocupados
a arrumar os papéis ou desabotoar-me o vestido
porque resistimos à burocracia e ao cansaço.
Não te importes amor se hoje te amo tanto.
São horas. Levo a minha pele à rua.
Uma fome real de pão e do teu corpo.
É assim que se ama.
Contigo sinto "nós".
Com que alimento a imaginação?
É por isso que devemos saber escutar
o aroma da língua, 
o coração
e os nossos beijos são a língua delirante do poema.
Não te importes amor.




Rosa Alice Branco









segunda-feira, 22 de julho de 2013

os cinzeiros já estão cheios de meias palavras












Vejo-te um pouco como se já não houvesse uma casa para nós. 
As grandes perguntas estão aí por todo o lado, 
onde quer que se respire, dentro
dos próprios frutos. É o começo da noite e os cinzeiros 
já estão cheios de meias palavras:
porque escolhemos tão pouco aquilo que nos pertence?
Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas
a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,
quase uma razão. As minhas canções preferidas
pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia
que te vestias com elas. E no entanto
como se apressaram as grandes florestas a invadir
as gavetas, como misturaram as raízes
no eco que fazia o teu desejo contra mim.





Rui Pires Cabral









sexta-feira, 19 de julho de 2013

faz-me só um favor:
















Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda, e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.





Inês Dias