segunda-feira, 23 de outubro de 2017

flores















Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.




Mia Couto












segunda-feira, 16 de outubro de 2017

entretanto já é hora de dormir













Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos 
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados, 
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre. 
Mas entretanto já é hora de dormir. 
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.




José Miguel Silva










domingo, 15 de outubro de 2017

Demoro-me a escutar um rumor


















Não se aprende grande coisa com a idade. 
Talvez a ser mais simples,
 a escrever com menos adjectivos.
 Demoro-me a escutar um rumor.
 Pode ser o prelúdio tímido ainda
 do cantar de um pássaro, uma gota 
de água na torneira mal fechada, 
a anunciação do tão amado
 aroma dos primeiros lilazes. 
Seja o que for, é o que me retém 
aqui, me sustenta, impede de ser 
uma qualquer vibração da cal, 
simples acorde solar, um nó
 de luz negra prestes a explodir. 






Eugénio de Andrade













sábado, 7 de outubro de 2017

sem ti















Se te contarem que me viram muito bêbado,
não é por ti.
(por ti embriago-me belo,
depois do vinho escrevo versos sobre a liberdade
e de noite,
canto, e todo deserto fica longe)
Orgulhosamente
diz-lhes que é
sem ti.





Ana María Oviedo Palomares


















domingo, 10 de setembro de 2017

Vê se adivinhas…












Se eu pudesse dizer-te: - senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém - Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!







Alexandre O'Neill















quarta-feira, 30 de agosto de 2017

os poemas são pássaros

















Os poemas são pássaros que chegam 
não se sabe de onde e pousam 
no livro que lês. 

Quando fechas o livro, eles alçam voo 
como de um alçapão. 
Eles não têm pouso 
nem porto 
alimentam-se um instante em cada par de mãos 
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, 
no maravilhado espanto de saberes 
que o alimento deles já estava em ti...




Mário Quintana

















terça-feira, 29 de agosto de 2017

na danação da alma ao faltar-lhe o alimento que lhe trazias


















Não tardará a chegar ao fim
este agosto que te viu passar com a luz
a teus pés. Somos eternos, dizias.
Eu pensava antes na danação
da alma ao faltar-lhe o alimento
que lhe trazias. Agora a cidade vive
do peso incomensuravelmente morto
dos dias sem a tua presença. Deixo
a mão correr sobre o papel tentando
captar o eco de uma palavra,
um sinal de quem em qualquer parte
cintila, e confia ao vento o segredo
da nossa tão precária eternidade.






Eugénio de Andrade





















terça-feira, 22 de agosto de 2017

estranhas paixões













Não sou capaz de estranhas paixões
e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.





Luís Filipe Parrado












segunda-feira, 14 de agosto de 2017

quando era o amor que definia o cânone da beleza













Era esse o tempo em que nenhum rosto se parecia
com o teu, a mais bela mulher do mundo, quando
era o amor que definia o cânone da beleza, e
só tu entravas nesse patamar em que a respiração
fica suspensa, os olhos não se desprendem de
outros olhos, e mesmo que tenhas partido são eles
ainda que guardo em mim, como se o olhar que nos
prendia um ao outro tivesse apagado o mundo
do meu horizonte, em que só tu cabias, mesmo que
não to tivesse dito, e só não sabia era se tu sentias
por mim o mesmo que eu sentia por ti, que de tal forma
me oprimia que nem queria saber o que tu, na verdade,
sentias, porque a verdade eram os teus olhos,
e os lábios que, ao abrirem-se, abriam o sorriso
que me abria a vida onde só tu cabias, até ao
dia em que desapareceste, para que eu não mais
te visse, até esse dia em que passaste por mim, e
só os olhos eram os mesmos, fazendo com que
anos, cidades, dias e noites, insónias e dores,
se tivessem apagado entre mim e ti, nesse breve
instante em que revi os teus olhos, e não mais te vi. 


Nuno Júdice
















sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a tua ausência nua nos meus braços













A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar

Por isso fecho os olhos

(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)

Por isso fecho os olhos

E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio

Experimento um silêncio

Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos

Perco-me no teu retrato
Horas seguidas

E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.





Alexandre O'Neill












quarta-feira, 9 de agosto de 2017

todo o calor é de mais dentro que vem














Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem



Rui Caeiro













deserto













A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide inclinei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: “Estou a modificar o Saara”. O facto era ínfimo, mas as não engenhosas palavras eram exactas e pensei que tinha sido necessária toda a minha vida para que eu pudesse dizê-las. A memória desse momento é uma das mais significativas da minha estada no Egipto.


Jorge Luis Borges















terça-feira, 8 de agosto de 2017

Deve haver um poema que fale de ti e de mim














Deve haver um poema que fale de ti,
um poema que more em algum lugar
onde te fale sem fechar os olhos,
sem tombar por força na tristeza.
Deve haver um poema que fale de ti e de mim.
Um poema intenso como o mar,
azul e repousado de manhã,
negro e eriçado pela noite,
rebelde na ordem das coisas,
como o mar
que cobiça tanto os peixes como as estrelas.
O singelo equilíbrio do mar te desejo,
seu silêncio e profundidade,
sua imensidade e beleza.
Para ti o poema transparente,
sem palavras difíceis que não entendas,
um poema silencioso que recordes sem esforço
e seja terno e frágil como a flor
que eu não me atrevi a prender-te no cabelo.
Mas que difícil é a flor se mal a cortamos
dura apenas umas horas,
que difícil o mar se mal lhe tocamos
vai-se embora,
para voltar depois com grande fúria.
Não, não quero tal para ti,
quero um poema que te bata de noite na travesseira,
um poema onde te ache dormida,
sem memória,
sem passado possível que te altere.
Desde que te conheço que busco tal poema,
e é já de noite. Os relógios detêm-se cansados em sua marcha,
a música suspende-se num fio
onde pende triste a tua lembrança.
Agora penso em ti e penso
vendo bem que conhecer-te não foi tão difícil
como escrever este poema.








Eduardo Chirinos






hoje tenho a soma dos teus passos


















Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.





José Miguel Silva












segunda-feira, 7 de agosto de 2017

um momento de descanso
















Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver,

não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, 
nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se me não dizem nada,
odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, 
o que eu quero é uma voz que me queira, 
um momento de descanso nessa voz. 




Rui Nunes




















domingo, 6 de agosto de 2017

pediré que te vayas












Pediré que te vayas
a pesar de tu manos aliviando las mías
o palpando algún rastro de fiebre por mi cuerpo
a pesar de ser tú el viento que pudiese
alejar la tristeza o convertirla
en lluvia dócil

pediré que te vayas y dejes que se apague
este fuego que hiela mi garganta
no sea que llegue el opio y por quererme

sientas pudrírsete las manos
allí donde mi frente descansó tantas veces
y algo de mí aprendió 
a convertirse en río.


chantal maillard














domingo, 30 de julho de 2017

um dia bastaria
















Só mais um dia, 
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro, 
um dia bastaria, 
em prosa que fosse. 

Mas dá-me para a melancolia
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas 
de pão na mesa, as falhas
da pintura do tecto,
as vozes das visitas, despropositadas, 
sinto-me sujo como um objecto, 
desapegado, desarrumado. 

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
- no quarto e no coração. 



Manuel António Pina




















sexta-feira, 14 de julho de 2017

(não me fazes falta)












É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.





José Miguel Silva


















quarta-feira, 5 de julho de 2017

enseñame el camino del deseo















Enseñame el camino que siguen las estrellas fugaces
o el camino que traza el rayo en su caída
o el de la lluvia
o el de los seres que despiertas con tu voz
y que se duermen cuando callas.
Enseñame el camino del deseo.
Enseñame a olvidar las huellas de mis pasos en la tierra.



chantal maillard