domingo, 11 de fevereiro de 2018

uma pedra












pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe


Bénédicte Houart













quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

essa solidão éramos nós










Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;
e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.
.
Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.
.
E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,
e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.
.
Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,
o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca.
.
Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que
nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.
.
Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?
.
Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,
sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.





Manuel António Pina











terça-feira, 16 de janeiro de 2018

na ferida escondida no fundo da camisa










Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.
Era isso ou a alma.
A parte difícil é tirar a maldita coisa para fora.
Uma espécie de torção. Como abrir uma ostra,
a tua espinha, um pulso,
e depois, upa! Está na tua boca.
Viras-te parcialmente do avesso
como uma anémona do mar a cuspir um seixo.
Há um “plop”quebrado, o som
de vísceras de peixe a cair num balde.
E ali está, um enorme coágulo vermelho escuro
do passado ainda-vivo, a cintilar inteiro no prato.
Vai passando de mão em mão. É escorregadio.É deixado cair.
Mas também degustado. Muito grosseiro, diz um. Muito salgado.
Muito amargo, diz outro, fazendo uma cara.
Cada um é um gourmet instantâneo,
e tu ficas a ouvir isto tudo
a um canto, como um empregado de mesa recém-contratado,
a tua mão tímida e habilidosa na ferida escondida
no fundo da camisa e peito,
timidamente, sem coração.




Margaret Atwood
(tradução Maria Sousa)












quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

depois de desistir de ser manso e calmo














Ficarás comigo quando me levantar do chão
depois de desistir de ser manso
e calmo e pensar só em não mais
aquietar o mundo,
não mais poupá-lo às palavras que devem ser ditas
não mais desistir do que é correcto?


Ficarás comigo quando colocar em risco todas
as raízes e mesmo as nossas árvores e
houver um horizonte que possa ser só fogo,
tudo queimando
mesmo se te garanto que às vezes temos de arder?





Pedro Santo Tirso

















quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

agora sei que oiço as coisas devagar















Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego
seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies 
e utensílios.

A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,
parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil
(falo de fóssil, mesmo
que ele demore a aparecer no que digo),
um som do tamanho de um azulejo; agora que me lembro que era uma palavra

que brilhava nos meus olhos ao vê-la
(ver uma palavra era uma planta muito diferente,
um oxigénio muito difícil de se respirar).

Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.
Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.





Daniel Faria, Poesia





pela flor, aqui


















quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

sedento
















Havia meses que não escrevia 
nem um único poema. 
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder 
e nas causas da obediência. 
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação), 
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
e o silêncio da noite. 
Via os girassóis a pendurarem 
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído 
passeasse por entre os jardins. 
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos 
se escondiam nas curvaturas dos muros. 
Dava longos passeios, 
sedento duma coisa só:
dum relâmpago, 
duma mudança, 
de ti. 



Adam Zagajewski

















sexta-feira, 17 de novembro de 2017

até que volte a ser cedo














É tarde,
nenhum sono
repõe o que não vivi

É tarde,
nenhum amanhã
cura a ferida
que em nós sangra.

Agora,
que não há sonho,
posso, enfim, dormir

Agora,
é tarde demais para morrer.

Agora,
resta um único desfecho:
de novo, acordar por dentro.

E acordar sempre
até que volte a ser cedo.





Mia Couto


















quarta-feira, 15 de novembro de 2017

descubrieron











En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey
y a una reina de otro mundo
y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo
quien adorara al sol y a la luna
y a la tierra y a la lluvia que la moja.


Eduardo Galeano













domingo, 12 de novembro de 2017

que me quereis?















1. 
Sê tu a palavra, 
branca rosa brava. 

2. 
Só o desejo é matinal. 

3. 
Poupar o coração 
é permitir à morte 
coroar-se de alegria. 

4. 
Morre 
de ter ousado 
na água amar o fogo. 

5. 
Beber-te a sede e partir 
- eu sou de tão longe. 

6. 
Da chama à espada 
o caminho é solitário. 

7. 
Que me quereis, 
se me não dais 
o que é tão meu? 








Eugénio de Andrade












segunda-feira, 23 de outubro de 2017

perder-te














(...)

O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.


Por isso me ergo daqui e atravesso estas imagens coladas às
paredes, e ao atravessá-las descubro que estou perdido, e
condenado também a perder-te.

(...)








Al Berto, Lunário




















flores















Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.




Mia Couto












segunda-feira, 16 de outubro de 2017

entretanto já é hora de dormir













Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos 
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados, 
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre. 
Mas entretanto já é hora de dormir. 
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.




José Miguel Silva










domingo, 15 de outubro de 2017

Demoro-me a escutar um rumor


















Não se aprende grande coisa com a idade. 
Talvez a ser mais simples,
 a escrever com menos adjectivos.
 Demoro-me a escutar um rumor.
 Pode ser o prelúdio tímido ainda
 do cantar de um pássaro, uma gota 
de água na torneira mal fechada, 
a anunciação do tão amado
 aroma dos primeiros lilazes. 
Seja o que for, é o que me retém 
aqui, me sustenta, impede de ser 
uma qualquer vibração da cal, 
simples acorde solar, um nó
 de luz negra prestes a explodir. 






Eugénio de Andrade













sábado, 7 de outubro de 2017

sem ti















Se te contarem que me viram muito bêbado,
não é por ti.
(por ti embriago-me belo,
depois do vinho escrevo versos sobre a liberdade
e de noite,
canto, e todo deserto fica longe)
Orgulhosamente
diz-lhes que é
sem ti.





Ana María Oviedo Palomares


















domingo, 10 de setembro de 2017

Vê se adivinhas…












Se eu pudesse dizer-te: - senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém - Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!







Alexandre O'Neill















quarta-feira, 30 de agosto de 2017

os poemas são pássaros

















Os poemas são pássaros que chegam 
não se sabe de onde e pousam 
no livro que lês. 

Quando fechas o livro, eles alçam voo 
como de um alçapão. 
Eles não têm pouso 
nem porto 
alimentam-se um instante em cada par de mãos 
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, 
no maravilhado espanto de saberes 
que o alimento deles já estava em ti...




Mário Quintana

















terça-feira, 29 de agosto de 2017

na danação da alma ao faltar-lhe o alimento que lhe trazias


















Não tardará a chegar ao fim
este agosto que te viu passar com a luz
a teus pés. Somos eternos, dizias.
Eu pensava antes na danação
da alma ao faltar-lhe o alimento
que lhe trazias. Agora a cidade vive
do peso incomensuravelmente morto
dos dias sem a tua presença. Deixo
a mão correr sobre o papel tentando
captar o eco de uma palavra,
um sinal de quem em qualquer parte
cintila, e confia ao vento o segredo
da nossa tão precária eternidade.






Eugénio de Andrade





















terça-feira, 22 de agosto de 2017

estranhas paixões













Não sou capaz de estranhas paixões
e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.





Luís Filipe Parrado












segunda-feira, 14 de agosto de 2017

quando era o amor que definia o cânone da beleza













Era esse o tempo em que nenhum rosto se parecia
com o teu, a mais bela mulher do mundo, quando
era o amor que definia o cânone da beleza, e
só tu entravas nesse patamar em que a respiração
fica suspensa, os olhos não se desprendem de
outros olhos, e mesmo que tenhas partido são eles
ainda que guardo em mim, como se o olhar que nos
prendia um ao outro tivesse apagado o mundo
do meu horizonte, em que só tu cabias, mesmo que
não to tivesse dito, e só não sabia era se tu sentias
por mim o mesmo que eu sentia por ti, que de tal forma
me oprimia que nem queria saber o que tu, na verdade,
sentias, porque a verdade eram os teus olhos,
e os lábios que, ao abrirem-se, abriam o sorriso
que me abria a vida onde só tu cabias, até ao
dia em que desapareceste, para que eu não mais
te visse, até esse dia em que passaste por mim, e
só os olhos eram os mesmos, fazendo com que
anos, cidades, dias e noites, insónias e dores,
se tivessem apagado entre mim e ti, nesse breve
instante em que revi os teus olhos, e não mais te vi. 


Nuno Júdice