sexta-feira, 17 de novembro de 2017

até que volte a ser cedo














É tarde,
nenhum sono
repõe o que não vivi

É tarde,
nenhum amanhã
cura a ferida
que em nós sangra.

Agora,
que não há sonho,
posso, enfim, dormir

Agora,
é tarde demais para morrer.

Agora,
resta um único desfecho:
de novo, acordar por dentro.

E acordar sempre
até que volte a ser cedo.





Mia Couto


















quarta-feira, 15 de novembro de 2017

descubrieron











En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey
y a una reina de otro mundo
y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo
quien adorara al sol y a la luna
y a la tierra y a la lluvia que la moja.


Eduardo Galeano













domingo, 12 de novembro de 2017

que me quereis?















1. 
Sê tu a palavra, 
branca rosa brava. 

2. 
Só o desejo é matinal. 

3. 
Poupar o coração 
é permitir à morte 
coroar-se de alegria. 

4. 
Morre 
de ter ousado 
na água amar o fogo. 

5. 
Beber-te a sede e partir 
- eu sou de tão longe. 

6. 
Da chama à espada 
o caminho é solitário. 

7. 
Que me quereis, 
se me não dais 
o que é tão meu? 








Eugénio de Andrade












segunda-feira, 23 de outubro de 2017

perder-te














(...)

O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.


Por isso me ergo daqui e atravesso estas imagens coladas às
paredes, e ao atravessá-las descubro que estou perdido, e
condenado também a perder-te.

(...)








Al Berto, Lunário




















flores















Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.




Mia Couto












segunda-feira, 16 de outubro de 2017

entretanto já é hora de dormir













Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos 
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados, 
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre. 
Mas entretanto já é hora de dormir. 
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.




José Miguel Silva










domingo, 15 de outubro de 2017

Demoro-me a escutar um rumor


















Não se aprende grande coisa com a idade. 
Talvez a ser mais simples,
 a escrever com menos adjectivos.
 Demoro-me a escutar um rumor.
 Pode ser o prelúdio tímido ainda
 do cantar de um pássaro, uma gota 
de água na torneira mal fechada, 
a anunciação do tão amado
 aroma dos primeiros lilazes. 
Seja o que for, é o que me retém 
aqui, me sustenta, impede de ser 
uma qualquer vibração da cal, 
simples acorde solar, um nó
 de luz negra prestes a explodir. 






Eugénio de Andrade













sábado, 7 de outubro de 2017

sem ti















Se te contarem que me viram muito bêbado,
não é por ti.
(por ti embriago-me belo,
depois do vinho escrevo versos sobre a liberdade
e de noite,
canto, e todo deserto fica longe)
Orgulhosamente
diz-lhes que é
sem ti.





Ana María Oviedo Palomares