segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Nunca são as coisas mais simples que aparecem





















Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.




nuno judice











quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

a olhar o que os braços não alcançam

























Minha querida, as tulipas vermelhas que deixaste sobre a mesa estão a morrer, a perder a cor. A casa está vazia, inundada de silêncios. Espero que estejas a fazer as malas para vires. Mas podes chegar sem malas, despida por fora ou por dentro. Gosto de ti com caracóis e sem caracóis. De chapéu e sem chapéu. Adoro sobretudo a maneira como dizes o meu nome que só a ti pertence. Não gosto nada de ti quando és má. Tu só és feia para me recordares a tua exímia perfeição, o contorno das tuas ancas violentas. Para poder ainda gostar mais. Minha miúda pequena, vem. Os passeios junto ao rio sem ti não são os mesmos. Faltam os demorados passos, as súbitas paragens. É por isso que estou quieto, a minha inteligência pousada sobre as mãos a olhar o que os braços não alcançam. Vou ficar assim até tu chegares, tapando-me a vista com o fogo dos teus dedos, a cicatriz aberta a meio do corpo.










pedro paixão, mensagem in o mundo é tudo o que acontece












sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

no me quites tu risa


























Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, por que tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría.







Pablo Neruda






quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Devias estar aqui rente aos meus lábios













devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um - eu vi a terra limpa no teu rosto, só no teu rosto e nunca em mais nenhum










eugénio de andrade














domingo, 24 de Janeiro de 2010

essa mulher sentada diante do computador















Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz electrónica
e pensa no mar.
 


 
Marina Colasanti












sábado, 16 de Janeiro de 2010

i wish you love








every man has his own destiny, the only imperative is to follow it, to accept it, no matter where it leads him




henry miller







"i wish you love"












quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

apenas mais um dia que passou















hoje venho dizer-te que nevou no rosto familiar que te esperava
não é nada, meu amor, foi um pássaro
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima,
um barco,
uma palavra.
foi apenas mais um dia que passou entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho,
uma só gota,
secretamente morta na tua mão.







eugénio de andrade