quarta-feira, 24 de abril de 2013

cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim
















Apenas 

uma coisa inteiramente transparente: 
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte 
nos teus olhos, que pude ver ainda 
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas 
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas 
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo, 
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo 
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis, 
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto- 
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos 
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu 
próprio, que uma parte da minha vida se apaga 
com esses restos. 





Nuno Júdice










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