sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Podemos sempre escrever na cabeça. Ou no corpo.

























Cama

Em resumo, sem pensar muito, em dois por dois, numa cama já com mais de dez anos, podemos fazer amor, podemos dormir, ler, ver televisão, falar ao telemóvel.

Isto diz ele. E ela concorda.

Ele acrescenta

Não podemos tomar banho.

Ela fica calada e vê-se na cama a ser tratada, banho assistido, o corpo sem movimento. Fecha os olhos e concentra-se em mais um episódio medonho de alguém que mata outro alguém.
Numa cama também se mata.
Também se morre.
No fim da noite, escreverá. Na cama. Como sempre fez.
Existem aquelas fotografias, era muito pequena, imagens a preto e branco, ela na cama com uma almofada, um caderno e um lápis.
Lembra-se da frase da Nobel da Paz e depois pensa que não teve um bom professor e que não irá mudar o mundo.
As coisas que lhe passam pela cabeça começam a ser estranhas pelas seis da tarde, quando chega às onze da noite é outra pessoa. Ninguém dá por isso.
Ainda bem.
Por isso, escreve, sozinha na cama. No quarto ao lado, o filho escreve sozinho na cama. Algures no mundo, alguém escreve, sozinho, na cama. Mesmo que não tenha um papel ou computador.
Podemos sempre escrever na cabeça. Ou no corpo.
Ela tatuou a palavra frágil. Num sítio visível, evidente, inesperado para uma pessoa como é, ou como os outros pensam que é. Paciência. Só depois da palavra tatuada é que percebeu que dentro de frágil está a palavra ágil.

Coisas destas são comuns nela. Mas ninguém sabe ou quem sabe não irá contar ao mundo e o mundo pode continuar na rota de colisão com a sua imagem ao avesso.



Patrícia Reis













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